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Nas ruas e nos clubes: o Carnaval de Vitória na primeira metade do século XX

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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público Municipal
Carnaval na Praça Costa Pereira. À direita, Teatro Carlos Gomes. 1941
Carnaval na Praça Costa Pereira. À direita, Teatro Carlos Gomes. 1941. (ampliar)
Arquivo Público Municipal
Carnaval na Praça Oito. Ao fundo, sede da empresa Wilson Sons & Co Limited. 1943
Carnaval na Praça Oito. Ao fundo, sede da empresa Wilson Sons & Co Limited. 1943.

As primeiras referências documentadas do Carnaval em Vitória remontam à segunda metade do século XIX, quando a cidade ainda ocupava uma pequena faixa entre a colina da Santa Casa de Misericórdia e o Morro do Vigia, nas proximidades da Igreja do Rosário. Por ruas estreitas e nas poucas praças do Centro, as alegria carnavalesca se espalhava e envolvia diferentes segmentos da população.

Uma das menções mais antigas ao Carnaval na capital foi registrada pelo Correio da Victoria, primeiro jornal de circulação periódica do Espírito Santo. Em em 10 de fevereiro de 1864, em uma pequena nota, o jornal relata que "aplaudiu-se nos dias 7, 8 e 9, os festejos carnavalescos, como era de esperar da bela rapaziada, percorrendo as ruas grande número de máscaras".

Na virada do século XIX para o XX, o Carnaval já se afirmava como uma experiência social, marcada pelas brincadeiras populares e pelas tentativas do Poder Público de ordenação do festejo. O Carnaval atraía uma multidão, com música e fantasias, pelas principais ruas, que ainda eram estreitas. As praças funcionavam como pontos de encontro e o comércio se adaptava ao calendário da folia, ostentando em suas bancas tecidos e adereços típicos.

No início do século XX, confetes e serpentinas passaram a integrar o cenário das ruas. O vestuário assumia papel central: fantasias sofisticadas ou, na ausência delas, o uso obrigatório de terno e gravata. Mulheres e crianças também se vestiam formalmente, se não tivessem fantasias. Instrumentos como pandeiro e violão acompanhavam os foliões.

Anúncios em jornais revelam a importância social da festa, com divulgação de adereços, programação e até cartas de leitores interessados em saber como seriam as comemorações.

O Carnaval do Centro, especialmente nas ruas do Rosário e Sete de Setembro, destacava-se pelo luxo, enquanto o chamado carnaval popular se concentrava na Cidade de Palha, atual Vila Rubim, com práticas como as guerras de mamonas. Desfiles de carroças ampliavam o percurso urbano da folia.

Entre 1900 e o final da década de 1920, consolidaram-se sociedades carnavalescas responsáveis por desfiles e bailes à fantasia, fortemente influenciados por modelos europeus. O Carnaval permanecia majoritariamente ao ar livre, ocupando o Parque Moscoso e a Praça Costa Pereira.

No início da década de 1930 surgiram as primeiras batucadas organizadas, sobretudo nos morros da Fonte Grande e da Piedade. Grupos como Mocidade da Fonte Grande e Chapéu de Lado inspiraram outras batucadas em diferentes bairros. Nas décadas seguintes, parte da festa deslocou-se para clubes como Vitória, Centenário, Náutico e Saldanha da Gama. A participação nesses espaços restritos era um indicador de pertencimento social.

Em 1950, a batucada Chapéu de Lado transformou-se na escola de samba Unidos da Piedade, a primeira do Espírito Santo. Outras batucadas seguiram o mesmo caminho.

Folia nas ruas e nos clubes

Registros do Arquivo Público Municipal, como legislações, fotografias, jornais e revistas, possibilitam a reconstrução dos Carnavais ao longo de mais de um século. A festa de rua, marcada pela espontaneidade, encontrou nos salões de clubes sociais novas formas de expressão.

A cidade cresceu, alguns clubes já não existem mais e o Carnaval de rua foi totalmente reformulado. O que não mudou é a importância da maior festa popular na vida cultural de Vitória.

Arquivo Público Municipal
Baile no Clube Saldanha da Gama. Revista Vida Capixaba. 1956
Baile no Clube Saldanha da Gama. Revista Vida Capixaba. 1956.
Arquivo Público Municipal
Batucada do Centenário no Estádio Governador Bley (Ifes) Revista Vida Capixaba 1956
Batucada do Centenário no Estádio Governador Bley (Ifes) Revista Vida Capixaba 1956

Bonecos de madeira gigantes nas praças Oito e Costa Pereira

No início do século XX, as praças Oito e Costa Pereira foram os grandes palcos da folia, concentrando os desfiles e encontros do Carnaval de Vitória. Bonecos gigantes de madeira, representando figuras históricas e tipos populares, eram fixados em postes e árvores, como nos coqueiros da Praça Costa Pereira, chamando a atenção dos foliões. Palanques, músicos, confetes e serpentinas completavam o cenário popular.

Batucadas e o Clube Centenário

A batucada do Centenário, sediado em Santa Lúcia, impulsionou o surgimento de outros grupos carnavalescos na cidade. Cada batucada era organizada em torno de um líder e sua família, com reuniões realizadas em residências, um modelo que reforçava laços comunitários. As marchas eram conduzidas por cavaquinho ou banjo, mantendo formações simples.

Mocidade de Santa Lúcia, tricampeã, em 1956

Em 1956, o festival Rio Branco x Santo Antônio reuniu grupos e reativou práticas dos Carnavais de rua, enfraquecidas pelas em clubes. A Mocidade de Santa Lúcia, tricampeã, simbolizou essa retomada, com grande entusiasmo.

Saldanha da Gama

O salão do Saldanha da Gama ficou pequeno e o clube transferiu, em 1956, o baile para o estádio esportivo. O sucesso foi total. Blocos de diversos bairros e municípios participaram do evento. A diversidade dos grupos retomou a lógica dos antigos cordões do Carnaval de rua.

Náutico Brasil

O Carnaval do Náutico Brasil, em 1956, mostrou a convivência entre organização associativa e participação direta dos foliões. Um pouco mais afastado do Centro da cidade, o clube criou uma dinâmica que lembrava antigos blocos de rua, informais, despojados.

Clube Vitória

Na década de 1950, o Carnaval do Vitória consolidou os clubes sociais como centros da folia. O clube, de frente para o Parque Moscoso, permanecia lotado durante os três dias de festa. Tipos tradicionais como "Sombra" e "Sete" indicavam a permanência de personagens antigos em novo espaço. Blocos familiares e fantasias padronizadas atualizavam antigos cordões. A festa reorganizava tradições do Carnaval de rua em ambiente fechado.

Referências

DUARTE, Leonardo Coelho. O samba no Morro da Fonte Grande - Vitória (ES): 1889-1955. Revista Eletrônica de Musicologia, Curitiba, v. 12, mar. 2009. Disponível em: http://www.rem.ufpr.br/_REM/REMv12/14/leonardo_coelho_duarte.htm. Acesso em: 6 fev. 2026.

GONÇALVES, Anselmo. Carnaval cem anos. Vitória: Secretaria de Estado do Comércio, 1985.

HEMEROTECA DIGITAL BRASILEIRA. Correio da Victoria (ES): 1849-1872.  Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, [s.d.]. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/acervo-digital/correio/218235. Acesso em: 9 fev. 2026.

HISTÓRIA DO CARNAVAL CAPIXABA. Morro do Moreno, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.morrodomoreno.com.br/materias/historia-do-carnaval-capixaba.html. Acesso em: 4 fev. 2026.

REVISTA VIDA CAPIXABA. Periódico. n. 737, fev. 1956. Vitória: Acervo do Arquivo Público Municipal de Vitória.

Arquivo Público Municipal
Rei Momo com a chave da cidade. Década de 1960
Rei Momo com a chave da cidade. Década de 1960. (ampliar)
Arquivo Público Municipal
Baile de Carnaval no Clube Náutico Brasil. Década de 1960
Baile de Carnaval no Clube Náutico Brasil. Década de 1960. (ampliar)