Prefeitura de Vitória

Atalhos de teclado:

Concha Acústica do Parque Moscoso: a mais antiga em atividade e a única tombada no país

Publicada em | Atualizada em

Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público Municipal
Concha Acústica, como anfiteatro. Foto de Alfredo Mazzei.
Concha Acústica, como anfiteatro. Foto de Alfredo Mazzei.
Arquivo Público Municipal
Concha Acústica, chafariz e lago. Foto de Alfredo Mazzei.
Concha Acústica, chafariz e lago. Foto de Alfredo Mazzei.

Inaugurado em 1912, o Parque Moscoso foi idealizado como uma boulevard, convidando os visitantes a um passeio contemplativo. As alamedas floridas e sombreadas espelhavam o desejo da cidade de se apresentar moderna, sofisticada e conectada aos grandes centros internacionais.

Quarenta anos depois, mudanças no país e no mundo levaram a capital capixaba a incorporar ao parque uma área nova, mais coletiva e ruidosa. Foi construída a Concha Acústica, de geometria curva e concreto aparente, que transformou os códigos de vivência e introduziu a cultura do espetáculo público no jardim mais antigo de Vitória.

A forma geométrica pura contrasta com os ornamentos ecléticos e art nouveau do parque. A Concha não foi feita para decorar, mas foi projetada para funcionar, amplificar e reunir pessoas, e passa a ser o espaço do espetáculo popular - música, circo, dança, teatro ao ar livre. Junto com o anfiteatro modernista, em 1953, é inaugurado o Jardim de Infância Ernestina Pessoa, concebido na mesma intervenção modernizadora do parque. 

Fotografias antigas, documentos e plantas arquitetônicas, preservadas no Arquivo Público Municipal, reconstroem o encontro do projeto de jardim, do início do século XX, com as obras modernistas, que anunciaram um novo uso para o espaço público.

Arquitetura pioneira

Concha Acústica do Parque Moscoso é a mais antiga em funcionamento contínuo no Brasil. Houve uma similar anterior ao anfiteatro capixaba, em São Paulo, no Estádio do Pacaembu, inaugurada em 1940. Palco de concertos e cerimônias cívicas nas décadas de 1940 a 1960, a concha acústica foi demolida em 1969.

O anfiteatro capixaba foi projetado em 1952 pelo arquiteto Francisco de Paula Lemos Bolonha, o mesmo autor do projeto do Jardim de Infância Ernestina Pessoa. As duas obras apresentam linguagem modernista, soluções de ventilação e iluminação naturais e integração com o parque cedntenário. Esse conjunto virou referência de modernidade no Centro de Vitória.

Bolonha também projetou a concha acústica da Praça Rui Barbosa, em Cataguases (MG), em 1958. Outros exemplos de estruturas equivalentes em atividade estão em Salvador (1967, concha do Teatro Castro Alves) e Brasília (1969, projeto de Oscar Niemeyer). 

Arquivo Público Municipal
Barbosa e Barbosinha no I Festival de Música Sertaneja Capixaba na Concha Acústica
Barbosa e Barbosinha no I Festival de Música Sertaneja Capixaba na Concha Acústica
Arquivo Público Municipal
O Trio Caiçara (Erasto Lucas, Jocarly Vasco e Valmir Ramos) e a canção Torta Capixaba na concha
O Trio Caiçara (Erasto Lucas, Jocarly Vasco e Valmir Ramos) e a canção Torta Capixaba na Concha.

Patrimônio protegido

A Concha Acústica do Parque Moscoso e o Jardim de Infância Ernestina Pessoa são tombados pelo Conselho Estadual de Cultura desde 1986 -  Resolução nº 10/1986, nos Livros do Tombo Histórico (nº 129, fls. 23v-24) e Belas Artes (nº 64, fls. 15v-16).

A proteção jurídica se deve ao reconhecimento de que esses equipamentos carregam uma história que não pode se perder, que pertencem à memória coletiva. No caso da Concha, além da proteção da estrutura arquitetônica, o tombamento reconhece o gesto histórico: Vitória definiu um novo papel para seu principal parque urbano. 

Francisco de Paula Lemos Bolonha (1923, Belém/PA)

Arquiteto modernista formado pela Escola Nacional de Belas Artes (1945), Bolonha estagiou e colaborou com nomes da "escola carioca de arquitetura moderna", como Jorge Machado Moreira, Affonso Eduardo Reidy e Roberto Burle Marx. Teve projetos publicados em revistas nacionais e internacionais nas décadas de 1940 a 1960. 

Foi diretor do Departamento de Construções e Equipamento Escolar no Governo Carlos Lacerda, na antiga Guanabara, na década de 1960. Ele criou um padrão de modulação estrutural e equilíbrio na distribuição espacial que possibilitou a construção de mais de 240 escolas na sua gestão.

A intervenção modernizadora no Parque Moscoso ocorreu no segundo governo de Jones dos Santos Neves, integrando o Plano de Valorização Econômica, um programa que impulsionou obras urbanas e culturais na capital.

Bolonha faleceu aos 83 anos, no dia 30 de dezembro de 2006.

Referências:

BIOGRAFIA - Francisco Bolonha. [S. l.: s. n.], s.d. Disponível em: https://franciscobolonha.wordpress.com/biografia/. Acesso em: 20 fev. 2026.

VIEIRA, Fabíola Cândido Silva. Análise das políticas de valorização do Centro de Vitória-ES. Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Humanas e Naturais, 2024. Disponível em:  https://ape.es.gov.br/Media/ape/PDF/Disserta%C3%A7%C3%B5es%20e%20Teses/Geografia/DISSERT_FABIOLACSV_FINAL_08_07_2024.pdf#:~:text=ano%20de%202009%2C%20o%20porto%20de%20Vit%C3%B3ria,Centro%20de%20refer%C3%AAncia%20do%20artesanato%20capixaba%2C%20em. Acesso em: 20 fev. 2026.

Vitória: Concha acústica do Parque Moscoso. Ipatrimônio.org. Disponível em:
https://www.ipatrimonio.org/vitoria-concha-acustica-do-parquemoscoso/#!/map=38329&loc=-20.319768000000007,-40.342165,17. Acesso em: 19 fev. 2026.

Arquivo Público Municipal
Cartão Postal ColonVist com Anfiteatro da Concha Acústica do Parque Moscoso. Década de 1960
Cartão Postal ColonVist com Anfiteatro da Concha Acústica do Parque Moscoso. Década de 1960
Leonardo Silveira
Famílias com crianças na concha acústica mais antiga do país, patrimônio histórico dos capixabas
Famílias com crianças na concha acústica mais antiga do país, patrimônio histórico dos capixabas.