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Caramurus e Peroás: um santo, duas irmandades e a rivalidade que marcou Vitória no séc XIX

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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público Municipal
Ruas Caramuru, Dom Fernando e Adão Benezath. Ao fundo, o Convento São Francisco. Década de 1960
Ruas Caramuru, Dom Fernando e Adão Benezath. Ao fundo, o Convento São Francisco. Década de 1960. (ampliar)
Arquivo Público Municipal
Trecho inicial da Rua Dom Fernando, que liga o Parque Moscoso ao Convento São Francisco
Trecho inicial da Rua Dom Fernando, que liga o Parque Moscoso ao Convento São Francisco.

Durante os séculos XIX e XX, havia entre os moradores de Vitória dois grupos rivais: os Caramurus, formados por fiéis ligados ao Convento de São Francisco, na Cidade Alta, e os Peroás, que frequentavam a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na parte baixa da capital. A disputa, a princípio, girava em torno de qual grupo abrigaria a imagem de São Benedito, padroeiro das duas irmandades. A rivalidade era tão levada a sério que impactou o vestuário, a música, práticas culturais e, em certa medida, a dinâmica política local.

Vale a pena relembrar esta história, contada por meio de fotografias, jornais e outros documentos  preservados no Arquivo Público Municipal. Os nomes das ruas Caramuru e Dom Fernando, assim como o Viaduto Caramuru, todos na Cidade Alta, estão diretamente ligados a este episódio histórico.

Um santo popular

A festa de São Benedito, celebrada em 26 de dezembro, era um dos principais eventos da capital. Era irmandade de São Francisco organizava os festejos, cujo ponto alto era a procissão que conduzia a imagem do Convento até a parte baixa da cidade, onde fica a Igreja Nossa Senhora do Rosário, também conhecida como Igreja do Rosário dos Homens Pretos.

A devoção a São Benedito - frade franciscano italiano, filho de escravos etíopes na Sicília, que destacou-se pela humildade, caridade e milagres como cozinheiro em conventos - era muito significativa entre a população negra capixaba. Ele foi associado à proteção de sobreviventes do naufrágio do navio Palermo, ocorrido na costa do Espírito Santo, em meados do século XIX. A tradição oral conta que os náufragos intercederam por um milagre ao santo. Agarrados apenas ao mastro do navio, eles chegaram a salvo em terra firme. Esse episódio é associado à origem ou ao fortalecimento da Fincada do Mastro, mantida até os dias atuais.

Recolhimento da imagem de São Benedito motivou a divisão

Em 1832, devido às chuvas no dia da celebração, o responsável pelo Convento São Francisco, frei Manoel de Santa Úrsula, não autorizou a saída da imagem para a procissão. A decisão gerou descontentamento entre membros da irmandade do Convento, que passaram a pressionar e a enfrentar o frei. Dias depois, em meio às tensões internas, o frei determinou a retirada de todos os objetos ligados ao grupo dissidente, desde vestuário a roupas, de dentro do Convento e manteve a escultura recolhida em uma sala trancada. A partir daí, parte dos devotos passou a se reunir na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, dando origem a nova irmandade.

Em 1833, com a saída do frei Manoel de Santa Úrsula do Espírito Santo, um novo religioso assumiu o convento, Frei Antônio de São Joaquim, e a imagem foi novamente colocada no altar. No entanto, ainda naquele ano, temendo novas represálias, membros da irmandade formada no Rosário retiraram a escultura e a levaram para a parte baixa da cidade. O episódio é apontado como um dos marcos da intensificação da rivalidade.

Como os integrantes que permaneceram no Convento de São Francisco também reivindicavam a posse da imagem, criou-se uma disputa que se estendeu por décadas. Durante algum tempo, a imagem alternava entre os dois locais, ficando parte do ano no Convento e parte na Igreja do Rosário. Com a reincidência dos conflitos, no início do século XX, a Diocese de Vitória determinou o fim das procissões vinculadas às duas irmandades.

Instituto Jones dos Santos Neves
Chegada da imagem de São Benedito na Igreja Nossa Senhora do Rosário
Chegada da imagem de São Benedito na Igreja Nossa Senhora do Rosário.
Carlos Antolini
Escadaria do Rosário e palmeiras imperiais. 1995
Escadaria do Rosário e palmeiras imperiais, em 1995. (ampliar)

A origem dos apelidos

Cada irmandade era representada por uma cor, que era aplicada em vestimentas, flâmulas e na ornamentação festiva. O grupo ligado ao Convento de São Francisco era associado à cor verde, enquanto a Igreja do Rosário era associada à cor azul. Essas cores eram muito recorrentes em eventos esportivos, por exemplo. Nas competições de remo, bastante popular na época, as embarcações associadas aos Caramurus utilizavam a cor verde, enquanto as dos Peroás adotavam o azul e essas cores também identificavam os respectivos torcedores.

Em um dos conflitos envolvendo a posse da imagem de São Benedito, os fiéis do Rosário passaram a se referir ao grupo do Convento como "Caramurus", um termo empregado para designar grupos de perfil conservador ou restaurador no período do Império. O apelido foi logo relacionado ao peixe caramuru, esverdeado, pouco apreciado pelos pescadores, como tom depreciativo. Em resposta, o grupo do Convento passou a chamar os frequentadores do Rosário de "Peroás", também associado, no uso popular, ao peixe de cor azul, de baixo valor comercial, reforçando o caráter simbólico e provocativo da rivalidade.

É importante lembrar que o Convento de São Francisco era predominantemente frequentado por membros da elite da cidade, em sua maioria brancos. Já a Igreja Nossa Senhora do Rosário reunia  predominantemente pessoas negras, livres e escravizadas.

O historiador Fernando Achiamé afirma que, na década de 1830, nos primeiros anos da rixa, a disputa era mais intensa e frequentemente chegava às vias de fato, com registros de agressões entre os grupos. Ele relata que, nos dias de festa, mulheres identificadas com os Peroás utilizavam roupas azuis, mas calçavam sapatos ou chinelos verdes. Segundo o historiador, simbolicamente, elas estavam "pisando" ou "andando em cima" do grupo rival. As mulheres associadas aos Caramurus adotavam a mesma prática, invertendo as cores. 

A abolição uniu Peroás e Caramurus

Há registros de que as duas irmandades estabeleceram uma trégua em 13 de maio de 1888, durante as celebrações pela Abolição da Escravatura. Nesse momento, diferentes setores da sociedade brasileira, incluindo grupos ligados tanto a posições conservadoras quanto a liberais já se manifestavam, em graus variados, favoráveis ao fim da escravidão.

Segundo Fernando Achiamé, durante o Império, havia uma identificação dos Caramurus com posições conservadoras e dos Peroás com posições liberais, mas é preciso considerar que muitas pessoas não tinham acesso ao voto. Além disso, o sistema político era centralizado e a política local era fortemente influenciada por decisões externas vindas da capital (Rio de Janeiro) e até mesmo da Coroa Portuguesa.

Com a Proclamação da República, as diferenças políticas entre os grupos perderam força e a rivalidade religiosa, embora ainda presente, tornou-se menos intensa ao longo do tempo. 

Herança 

Mais de um século após o fim da divisão, uma das principais heranças do período é o Viaduto Caramuru, construído na década de 1920. Projetado para ligar vias da Cidade Alta e integrar o sistema de circulação urbana, incluindo a passagem de bondes, o viaduto recebeu esse nome em referência aos devotos ligados ao Convento de São Francisco.

A rua localizada abaixo da estrutura é a Rua Caramuru, nomeada ainda no século XIX, também em alusão a esse grupo. Durante a década de 1930, intervenções urbanas resultaram na demolição de algumas construções próximas ao viaduto, com o objetivo de ampliar a via e melhorar a circulação. 

O viaduto liga as ruas Francisco Araújo e Dom Fernando, esta última nomeada em homenagem ao bispo da Diocese de Vitória no início do século XX, que teve um papel decisivo no fim os conflitos entre as irmandades dos Caramurus e Peroás. Dom Fernando de Souza Monteiro, irmão do governador Jerônimo Monteiro, foi quem extinguiu as procissões das irmandades de Caramurus e Peroás.

Devido aos conflitos físicos e aos maus comportamentos dos fiéis nas festas de São Benedito, que misturavam devoção com bebidas, fogos de artifício e brigas em 27 de março de 1905,emitiu uma portaria reduzindo o número de procissões em Vitória e extinguindo especificamente a procissão de São Benedito. A intenção era educar a população, separar religião e rivalidades e evitar a exibição de poder político e social, reduzindo a tensão entre a elite (Caramurus) e as classes mais populares (Peroás).

Referências:

· ACHIAMÉ, Fernando. Vitória: história e memória. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura.

· ACHIAMÉ, Fernando. Estudo sobre autoria da obra memórias do passado: a Vitória através de meio século. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Vitória, n. 50, p. 95, 1998. Disponível em: https://ihges.org.br/publicacoes/revista/50.pdf. Acesso em: 28 abr. 2026

. ELTON, Elmo. Caramurus e Peroás. [S. l.]: Morro do Moreno, 27 set. 2021. Disponível em: https://morrodomoreno.com.br/materias/caramurus-e-peroas-por-elmo-elton.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

· SIQUEIRA, Francisco Antunes de. Esboço histórico dos costumes do povo espírito-santense: desde os tempos coloniais até nossos dias. 3. ed. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, 2023. Disponível em: https://ael.org.br/publicacoes_da_academia_espirito_santense_de_letras/esboco_historico_dos_costumes_do_povo_do_es.pdf. Acesso em: 29 abr. 2026.

· ZANON, Lorena Barcellos; TEIXEIRA, Roberto; LOYOLA, Lúcio Cesar. A influência dos Caramurus e Peroás na identidade capixaba. DESTARTE, Vitória, v.4, n.1, p. 28-42, abr. 2014.  Disponível em: https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/destarte/article/download/478/433/616. Acesso em: 27 abr. 2026 

Arquivo Público Municipal
Vista da Igreja do Rosário, também chamada de Igreja do Rosário dos Homens Pretos
Vista da Igreja do Rosário, também chamada de Igreja do Rosário dos Homens Pretos.
Museu da Igreja do Rosário
A guarda da imagem de São Benedito foi um dos fatores para a rivalidade entre Caramurus e Peroás
A guarda da imagem de São Benedito foi um dos fatores para a rivalidade entre Caramurus e Peroás.