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Finados: história dos cemitérios revela antigas práticas de sepultamento em Vitória

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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público Municipal
Fachadas do Colégio São Tiago, atual Palácio Anchieta. Década de 1900
Fachadas do Colégio São Tiago, atual Palácio Anchieta. Década de 1900. (ampliar)
Arquivo Público Municipal
Túmulo de Padre José de Anchieta no Palácio Anchieta. Foto de Octávio Paes. Década de 1930
Túmulo de Padre José de Anchieta no Palácio Anchieta. Foto de Octávio Paes. Década de 1930. (ampliar)

No dia 2 de novembro, Dia de Finados, milhares de capixabas dirigem-se aos cemitérios públicos de Vitória -- o de Santo Antônio e o de Maruípe (Boa Vista) -- para prestar homenagens aos seus entes queridos. É a data de maior visitação e movimentação nesses espaços da capital. O que poucas pessoas sabem é que, muito antes da criação das duas necrópoles, havia diferentes práticas de sepultamento que remontam ao período colonial.

Mais do que isso: poucos imaginam que os principais cemitérios ficavam no Centro da cidade;  havia um cemitério protestante, do qual só restam os muros; uma necrópole é tombada como patrimônio histórico pelo Iphan; e que até o engenheiro Saturnino de Brito projetou um "cemitério-bosque" no Projeto do Novo Arrabalde, que não saiu do papel.

Leis, decretos, títulos de posse, projetos arquitetônicos, pranchas cartográficas e fotografias, preservados no Arquivo Público Municipal, retratam as diversas formas de reverenciar os mortos ao longo do tempo.

Os primeiros sepultamentos da Vila de Vitória

Quando os colonizadores portugueses transferiram a sede da Capitania, em 1551, de Vila Velha para a Ilha de Duarte de Lemos, duas organizações religiosas estabeleceram as primeiras áreas dedicadas ao sepultamento dos habitantes da recém-criada Vila de Nossa Senhora da Vitória. O templo da Igreja Matriz (atualmente, Catedral) converteu-se no principal local dos enterros, abrigando os corpos de moradores, desbravadores e das autoridades no subsolo e arredores do templo, no início da década de 1550.

Na mesma época, foi erguida pelos padres jesuítas, sob a liderança do Padre Afonso Brás, em 1551, a Igreja e o Colégio de São Tiago (atualmente, Palácio Anchieta). Com a consolidação da missão jesuítica, foram abertos espaços para os túmulos de indígenas convertidos ao catolicismo, dos colonos e dos próprios membros da Companhia de Jesus no solo do colégio e no subsolo da igreja.

Diante do altar-mor da Igreja de São Tiago foi sepultado o padre José de Anchieta, in 1597. Entre 1609 e 1610, os restos mortais do jesuíta foram enviados para Salvador (Bahia), Roma, Portugal e outros colégios no Brasil. Atualmente, a cripta do palácio preserva um relicário com um fragmento do fêmur de Anchieta, canonizado como santo em 2014.

As irmandades católicas e os cemitérios

Até a primeira metade do século XIX, a tradição católica era realizar sepultamentos no interior das igrejas ou em ambientes (adros) contíguos. Essa prática era considerada um sinal de prestígio e salvação espiritual: repousar o mais próximo possível dos santos (ad sanctos). Fora do centro urbano, as famílias faziam os enterros em suas propriedades e à beira de caminhos ou estradas, sem registros ou preocupações sanitárias.

Igreja e Convento de Nossa Senhora do Carmo

Fundado em 1682 pelos padres carmelitas, o complexo do Carmo era um imenso conjunto arquitetônico que envolvia o Convento, a Igreja e a Capela da Ordem Terceira, demolida no início do século XX. Lá foram sepultados os religiosos da ordem e os grandes fazendeiros e benfeitores da Província.

Como a ordem dependia de doações para erguer o convento, os espaços nas catacumbas internas eram cedidos para a elite agrícola, que reunia os maiores doadores. Um exemplo foi o sepultamento do capitão Manuel Torres de Sá, falecido em 1701. Ele foi o maior benfeitor dos padres carmelitas em Vitória, deixando em seu testamento fazendas com engenhos de cana-de-açúcar inteiras e dezenas de escravizados para a Igreja em troca de missas por sua alma e do direito de descansar perpetuamente no solo do convento.

No século XIX, o prédio foi parcialmente confiscado pelo governo provincial para servir de quartel militar e corpo policial. Com as sucessivas reformas no século XX, a maior parte dos túmulos coloniais foi removida. Ainda há resquícios arquitetônicos desse período.

Arquivo Público Municipal
Igreja e Convento do Carmo com a Capela da Ordem Terceira à esquerda, demolida na década de 1910
greja e Convento do Carmo com a Capela da Ordem Terceira à esquerda, demolida na década de 1910.
Marcos Salles
Entrega da Reforma da Escadaria da Igreja do Rosário
Igreja do Rosário (ampliar)
Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Construída a partir de 1765 por escravizados e libertos, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos guarda um dos cemitérios simbolicamente mais importantes do Espírito Santo. Em uma época em que as igrejas sepultavam apenas pessoas brancas, a irmandade recebia exclusivamente pessoas negras -- escravizadas ou alforriadas -- no terreno ao lado do templo.

Antes desse cemitério, os corpos de escravizados ou libertos sem posses costumavam ser abandonados em matas, jogados diretamente no mar ou enterrados como indigentes em qualquer espaço vazio. O cemitério do Rosário foi construído para garantir um sepultamento cristão e digno. Porém, a maioria das sepulturas não tem identificação da pessoa que abriga.

Em 1912, com as leis sanitárias proibindo sepultamentos em áreas urbanas, as ossadas que estavam no pátio foram transferidas para o terreno adquirido pela irmandade no Morro do Pinto, próximo a Santo Antônio. Já as sepulturas no interior da igreja foram preservadas e formam um conjunto muito raro e importante para historiadores e arqueólogos no Brasil.

Igreja de São Gonçalo

Concluída em 1766, a Irmandade de São Gonçalo Garcia era formada por homens pardos e mulatos livres; muitos deles ocupavam altos cargos no governo e eram considerados uma elite parda. Após a desapropriação da antiga Igreja de São Tiago (atual Palácio Anchieta) e a demolição da antiga Igreja Matriz, a Igreja de São Gonçalo passou a funcionar, no dia 26 de agosto de 1918, como Catedral Provisória de Vitória.

Desde então, passou a receber sepultamentos de grandes autoridades da província, clérigos importantes e políticos locais do final do período monárquico em seus pátios laterais e no subsolo do altar-mor. Até hoje a igreja guarda relíquias portuguesas do século XVIII, como as imagens de Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier. A Igreja de São Gonçalo serviu de Catedral por 52 anos, até que o templo atual fosse inaugurado, em 1970.

O Cemitério do Convento de São Francisco

O Convento de São Francisco foi inaugurado em 1596. Ele foi construído por dois frades franciscanos, Antônio dos Mártires e Antônio das Chagas, a pedido de Vasco Fernandes Coutinho Filho, o governador da Capitania. Como era costume, os jazigos ficavam no pátio e nas paredes internas do mosteiro e eram exclusivos para os franciscanos e pessoas com alto poder aquisitivo, como comerciantes e autoridades.

O Frei Pedro Palácios, fundador do Convento da Penha, está entre os sepultados no local. Em 1925, o prefeito Octávio Índio decretou o fechamento definitivo das antigas sepulturas no morro do Convento de São Francisco. No pátio interno, onde atualmente encontra-se a Arquidiocese de Vitória, foi erguido um monumento com a imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, sob a qual estão as ossadas do antigo cemitério franciscano.

Diego Alves
IGREJA DE SÃO GONÇALO
Igreja de são Gonçalo
Jansen Lube
Convento de São Francisco
Convento de São Francisco (ampliar)