Prefeitura de Vitória

Atalhos de teclado:

Passarela do samba sobre o mar: o projeto da Esplanada Capixaba que redesenhou o Centro de Vitória

Publicada em | Atualizada em

Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público
Construção da atual Av Princesa Isabel. À direita, Mercado da Capixaba. Década de 1920
Construção da atual Av Princesa Isabel. À direita, Mercado da Capixaba. Década de 1920
Arquivo Público Municipal
Projeto da Esplanada Capixaba com a linha do mar. 1934
Projeto da Esplanada Capixaba com a linha do mar. 1934 (ampliar)

Quem vê os milhares de foliões ocupando a Beira‑Mar durante o Carnaval, com a vista única da Baía de Vitória, a brisa marinha e toda estrutura para o samba, até esquece que aquela área toda era apenas água até bem pouco tempo. Os moradores mais antigos ainda lembram do tempo em que o mar batia nos fundos do Theatro Glória; e contam dos cais atrás do Mercado da Capixaba e da praia próximo à antiga Capitania dos Portos (hoje, Casa Porto das Artes).

Nos últimos anos, a Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes (Beira‑Mar), com seu traçado contínuo e amplo, virou o corredor da folia durante os dias do Carnaval oficial e as avenidas Jerônimo Monteiro e Princesa Isabel, que também têm tradição de cortejos e desfiles, passaram a atender ao plano de circulação viária.

Essas três importantes avenidas integram a Esplanada Capixaba, o grande aterro que moldou o desenho do Centro de Vitória, e pavimentou a modernização sonhada desde o início do século XX. Concluído em 1955, o trecho desde a avenida Governador Bley até os arredores do forte São João representou uma área aproximada de 96.000 m2, em pleno coração da capital.

Plantas arquitetônicas, croquis, fotografias, jornais de época e outros documentos oficiais preservados no Arquivo Público Municipal mostram o esforço contínuo pela modernização de Vitória, por meio de talentos, engenharia e urbanismo. E, uma vez por ano, quando os foliões ocupam toda a avenida ao som dos blocos, a cidade dançando sobre o espaço que criou. Conhece outra cidade que, no Carnaval, dança sobre o mar?

O projeto de expansão e modernização de Vitória

Vitória cresceu comprimida por morros e marés. As partes baixas alagavam com frequência; os morros restringiam o avanço do traçado urbano. Os aterros passaram a ser o instrumento dos sucessivos governos para sanear, abrir vias e expandir o território. No final do século XIX, já eram feitos pequenos aterros. A prática é intensificada no início do século XX, para expansão do porto e da economia e para fins de saúde pública.

Nos anos 1920, Florentino Avidos avança a linha de terra e ergue o Mercado da Capixaba -- um marco físico de que a cidade começava a avançar sobre a água. Fotografias de época e plantas oficiais, preservadas no Arquivo Público Municipal, mostram o quanto a orla era irregular e como o projeto de Avidos ambicionava uma avenida contínua costeira, que mais tarde daria origem à atual Princesa Isabel.

O discurso modernizador ganha ainda mais corpo na década de 1950, quando Jones dos Santos Neves anuncia, no Plano de Valorização Econômica, que Vitória precisa "conquistar novas áreas de crescimento". O governo redesenha o sistema de evolução do porto e cria a grande área edificável contínua ao centro comercial. Nos relatórios de 1953-1955, Santos Neves descreve cerca de 96 mil m² tomados ao mar "em pleno coração da cidade", com areia resultante da drenagem do canal e desmontes de morros vizinhos.

Assim surgiu a Esplanada Capixaba, com suas quadras amplas e planas. O projeto não era apenas terraplanagem: era urbanismo. As quadras foram dimensionadas maiores e mais regulares do que as do Centro antigo e bem alinhadas para garantir continuidade com a malha viária preexistente.

O desenho tem origem nas grandes referências internacionais do urbanismo do século XX, (Alfred Agache, Le Corbusier). O Código Municipal de 1954 (Lei 351/54) criou o Bairro Comercial Especial (BCE) da Enseada Capixaba, prevendo usos comerciais e administrativos e gabaritos de 8 a 12 pavimentos por quadra, com o intuito de complementar o porto e o Centro com uma vitrine de edifícios novos, calçadas largas e praças à beira da baía. Surgem a rua Aristeu de Aguiar, a Praça Pio XII (originalmente um canteiro central alargado) e a Praça Getúlio Vargas.

No entanto, a ocupação não espelhou o desenho de 1954-1955 integralmente. Houve alterações na Praça Pio XII e em trechos viários e a verticalização ultrapassou os primeiros gabaritos. Ainda assim, a Esplanada cumpre a principal ideia do projeto: um campo visual aberto, de uso misto, que conecta o Centro histórico à baía -- exatamente a paisagem que, agora, os foliões atravessam em bloco, trio e fantasia.

No Centro da Capital, o Carnaval à beira mar

Durante décadas, o Carnaval de rua, em Vitória, ocupou a Avenida Jerônimo Monteiro, com shows na Praça Oito -- onde se montava uma estrutura especial para a festa. Após o período da pandemia de Covid, o circuito de rua migrou para a Avenida Beira-Mar e, desde 2023, a vem ganhando mais espaço e estruturas melhores.

Os idealizadores da Esplanada Capixaba não podiam imaginar que aquele Bairro Comercial Especial (BCE) seria a passarela do Carnaval de rua, concentrando milhares de foliões. Essa vocação para a Avenida Beira-Mar foi descoberta gestores do século XXI: uma via larga, linear, ventilada e com saídas para circulação bem evidentes. Ou seja, uma passarela "natural" que o urbanismo dos anos 1950 nos legou, quando decidiu tomar o mar para expandir o centro.

Referências 

DERENZI, Luiz Serafim. Biografia de uma ilha. Vitória: Prefeitura Municipal de Vitória, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, 1995. p. 183.

ESPÍRITO SANTO (Estado). Governador (1916‑1920: Bernardino de Souza Monteiro). Relatório apresentado pelo Dr. Bernardino de Souza Monteiro, Presidente do Estado, de sua gestão no quadriênio de 23 de maio de 1916 a 23 de maio de 1920, ao passar o Governo do Espírito Santo ao seu sucessor Exmo. Sr. coronel Nestor Gomes. Vitória: [s.n.], 1920.

FREITAS, José Francisco Bernardino. O aterro da Esplanada Capixaba: a "modernidade" privada. Anais do XXIII Simpósio Nacional de História - ANPUH, Londrina, 2005. Disponível em: . Acesso em: 11 fev. 2026.
VITÓRIA (ES).

Prefeitura Municipal. Código Municipal de Vitória: Lei nº 351, de 24 de abril de 1954. Vitória: Departamento de Imprensa Oficial, 1955.

Arquivo Público Municipal
Antiga orla do Centro Histórico. Ao fundo, a antiga Capitania dos Portos. Década de 1940
Antiga orla do Centro Histórico. Ao fundo, a antiga Capitania dos Portos. Década de 1940 (ampliar)
Arquivo Público Municipal
Obra de aterro para construção da Esplanada Capixaba. Década de 1940
Obra de aterro para construção da Esplanada Capixaba. Década de 1940