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MUG transforma ciência em poesia e faz da memória ambiental o fio condutor do desfile no Carnaval de

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Por Bárbara Bueno Sá (barbara.saeira$4h064+pref.cdtiv.com.br), com edição de Matheus Thebaldi


Marcos Salles
MUG
Marcos Salles
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A Mocidade Unida da Glória (MUG) cruzou o Sambão do Povo com um desfile que foi mais do que espetáculo: foi manifesto, memória e consciência. Com o enredo "O Diário Verde de Teresa", a escola abriu as páginas esquecidas da história para apresentar ao público a trajetória da princesa e cientista Teresa da Baviera, que esteve no Espírito Santo em 1888 catalogando espécies e registrando um inventário único da biodiversidade local.

Assinado pelo carnavalesco Petterson Alves, o enredo transformou os registros científicos da obra "Viagem ao Espírito Santo - 1888" em narrativa sensível e potente. Ao longo da avenida, a MUG revelou um Espírito Santo exuberante e diverso e pulsante.

Para o carnavalesco, Petterson Alves, transformar os escritos científicos de Teresa em carnaval convida o público à reflexão sobre memória, natureza e o próprio papel do carnaval como ferramenta de consciência coletiva. A mensagem central é um alerta: "Qual será o verde do nosso futuro se, no presente, não cuidarmos e não amarmos a natureza como Teresa ensinou em seus registros e estudos,"' concluiu.

Com cerca de 1.300 componentes, distribuídos em 20 alas, a escola desfilou com coesão estética, riqueza simbólica e forte impacto visual, com fantasias luxuosas, pedrarias, plumas e efeitos especiais em vários carros, reafirmando o papel da MUG, como uma das candidatas a ser campeã. A escola também cantou alto, e as palavras " Canta meu Leão e Força meu Leão", eram ouvidas durante todo o percurso na avenida.

Leonardo Silveira
MUG
Leonardo Silveira
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A Comissão de Frente estabeleceu imediatamente o tom sensível e simbólico do desfile. Com 14 bailarinos, a encenação colocou a própria natureza como protagonista. Vestidos como Araras Vermelhas, os bailarinos rasgaram o silêncio da avenida com movimentos amplos e precisos, simbolizando comunicação, alerta e conexão entre mundos. No centro da cena, a figura de Teresa da Baviera surgia como alguém disposta a ouvir, observar e respeitar o ritmo da floresta.

O primeiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, formado por Hudson Maia e Letícia Malaquias, conduziu o pavilhão da MUG com leveza, elegância e leitura clara de enredo. Com a fantasia "Verde Voa - Festa dos Papagaios", o casal simbolizou o acolhimento da floresta à cientista viajante.

Os papagaios, livres e coloridos, surgiram como metáfora da alegria, da comunicação e da vida da mata. Letícia apresentou giros seguros e uma bandeira que "respirava" com o samba, enquanto Hudson dialogava com o espaço da avenida com precisão e respeito, arrancando aplausos espontâneos das arquibancadas.

A Ala das Baianas, com o tema "Encantos Submersos das Águas Doces", trouxe as guardiãs dos rios, conduzindo Teresa em sua chegada serena, enquanto a canoa avança sem pressa pelas águas que guardam segredos e memórias.

A musa Juliana Kroebel Ribeiro, em "Serpenteando em Verde Esmeralda", deslizou pela avenida com movimentos sinuosos, simbolizando a serpente guardiã dos mistérios da mata.

O abre-alas - "A Terra Inexplorada - O Verde que Ainda Sonha" foi um verdadeiro delírio tropical. Troncos, raízes e palmeiras monumentais formaram um templo natural, enquanto espelhos d'água refletiam a floresta e a vida que nela habita. Canoas encantadas deslizavam calmamente, simbolizando a travessia e o primeiro contato, enquanto lupas ampliavam detalhes, convidando o público à observação atenta e ao encantamento diante do desconhecido.

Um dos momentos aplaudidos do desfile foi a Ala "O Botocudo - Raiz Viva da Floresta", que apresentou os povos originários como protagonistas do território. Com corpos pintados e gestos de respeito, eles acolheram Teresa da Baviera, revelando valores invisíveis que pulsam no chão, nas árvores e nos rios.

A Bateria Pura Ousadia, com 175 componentes, sob o comando do mestre Lucas Massariol, transformou a floresta em música e fez o Sambão do Povo respirar no ritmo do enredo. Com o tema "Sinfonia de um Sonho Verde", a bateria construiu um percurso sonoro marcado por surpresa, tensão e revelação, conduzindo o público por cada etapa da jornada de Teresa da Baviera.

Ainda antes do desfile, ao ser questionado sobre quais escolhas rítmicas e musicais a bateria fez para traduzir, na avenida, a floresta e a jornada de Teresa da Baviera contadas pelo enredo, o mestre Lucas destacou que a bateria apostou em escolhas rítmicas e musicais pensadas para traduzir, na Avenida, a jornada de Teresa de Baviera narrada no enredo.

A proposta traz muito balanço e uma marcação firme, criando um clima mais misterioso e envolvente. As bossas exploram contrastes: começam mais lentas e evoluem para momentos um pouco mais acelerados, com bastante corte, inversões de ritmo e mudanças surpreendentes. Segundo o mestre, tudo o que foi apresentado no ensaio técnico funciona como um teste fiel do desfile oficial e o nível mostrado ali será ainda mais elevado na apresentação final.

À frente da bateria, a rainha Layla Bastos desfilou com energia, presença e conexão total com o ritmo, reforçando a força e o encantamento do setor, em perfeita sintonia com a cadência da Pura Ousadia.

O segundo carro alegórico, "Relicário Indígena", aprofundou o encontro humano e transformador da viagem. A alegoria apresentou a geometria e as habilidades manuais indígenas como códigos ancestrais de identidade, proteção e comunicação com o mundo natural.

Cestarias, cerâmicas, grafismos, lanças e pinturas corporais estruturaram visualmente a alegoria, revelando uma cultura sofisticada e profundamente conectada à terra. Na parte traseira do carro, Teresa da Baviera aparecia sentada à rede, acolhida pela tribo. Já não era estrangeira: observava, escutava e registrava com respeito.

Encerrando o desfile, a última alegoria apresentou o retorno de Teresa à Europa. Forrada por trechos do diário, a composição materializou um grande inventário sensível da expedição. As malas levavam adornos, exemplares e presentes, não como troféus, mas como provas de uma troca respeitosa e transformadora.

Era como se Teresa não levasse apenas registros científicos, mas uma parte da floresta consigo. A verdadeira herança da viagem, deixou claro a MUG, está no compromisso com o que foi visto, vivido e registrado.

Ao cruzar a linha final, a Mocidade Unida da Glória foi aplaudida por um público que reconheceu a força do conjunto apresentado. Com delicadeza, consciência e poesia, a escola reafirmou o carnaval como espaço de educação sensível,e que, com certeza ficará guardado na memória de todos os presentes no Carnaval de Vitória 2026.

Leonardo Silveira
MUG
Marcos Salles
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