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Carnaval 2026: Tradição Serrana levou o legado de Queimado para a avenida
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Por Eduarda Miranda (eosmjesuseira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Eduarda Miranda
Tradição Serrana foi a penúltima escola a desfilar nesta sexta-feira (13), com o enredo "A Cor da Liberdade é Preta - O Legado de Queimado", que tem como eixo central a Revolta de Queimado, ocorrida em 1849 e liderada por Chico Prego.
Com 450 componentes, divididos em 17 alas e 1 alegoria, a proposta da escola revisita um dos mais significativos levantes de pessoas escravizadas no Espírito Santo, resgatando uma narrativa historicamente silenciada e reafirmando o protagonismo da população negra na luta por liberdade.
O enredo destacou a revolta como um movimento coletivo e organizado, que rompeu com a lógica da submissão e afirmou que a liberdade não seria concedida, mas conquistada. Ao relacionar o episódio histórico com a realidade contemporânea, a escola propôs uma reflexão sobre as permanências do racismo estrutural, da desigualdade social e da violência que ainda atingem majoritariamente a população negra.
A narrativa traçou paralelos entre as senzalas do século XIX e os territórios periféricos atuais, reconhecidos como espaços de resistência, solidariedade e criação cultural. O samba surgiu como linguagem central do desfile, compreendido não apenas como expressão artística, mas como instrumento político e de organização coletiva, historicamente associado à sobrevivência e à afirmação da cultura negra.
O enredo também se posiciona contra a intolerância religiosa, valorizando as religiões de matriz africana e o direito ao sagrado negro, entendendo a fé como herança ancestral e projeto de futuro. Ao longo do desfile, a escola exalta manifestações culturais negras que vão do samba ao funk, do rap ao grafite, reforçando a cultura como tecnologia de resistência.
Ao projetar um futuro afrofuturista, a Tradição Serrana encerrou o desfile com a imagem de uma "Constelação Negra", na qual crianças, lideranças e símbolos da realeza afirmam o direito de sonhar, existir e ocupar espaços de poder. Com isso, a escola transforma a avenida em território de memória, denúncia e esperança, reafirmando que o legado de Queimado permanece vivo na luta cotidiana da população preta.
Enredo
Eu sou a chama que arde no peito,
A memória viva do fogo que não se apaga.
Herdeiro da luta, justiça e respeito.
Sou Chico Prego, sou Queimados em pé,
Negro insurgente, de lança e de fé.
Fugi do cativeiro, queimei a senzala,
Levantei minha voz, fiz tremer a bala.
Do Espírito Santo ecoou meu clarim:
"Liberdade agora, é chegado o fim!"
E se pensam que a história passou,
Olha o gueto que nunca calou.
A favela resiste, no rap, no tambor,
No corpo que dança, no grito de amor.
Do tempo de senzala ao tempo das quebradas
Hoje, a favela samba com os pés fincados na terra
Entre estrelas e favelas, forjamos liberdade.
Porque o céu também é nosso.
Minha luta é presente, está viva, está aí
Na pele retinta que insiste em sorrir.
Eu sou revolta, sou povo, sou chão,
Sou negro, sou quilombo, sou revolução!