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Carnaval 2026: Tradição Serrana afirma protagonismo negro e justiça histórica
Publicada em
Por Julya Feitoza (jfcarvalhoeira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de SEGOV/SUB-COM
Fundada oficialmente em 1º de outubro de 2000, a Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba Tradição Serrana nasceu da iniciativa de Mário Mendes e um grupo de amigos que decidiram transformar o Bloco Tradição do Samba em escola de samba. À época, o bloco já desfilava havia cinco anos pelas ruas dos bairros Feu Rosa e Vila Nova de Colares, consolidando-se como uma manifestação popular ligada à identidade cultural da Serra.
As cores azul e branco foram mantidas como símbolos da agremiação e a bandeira da escola passou a reunir elementos que dialogam com a história e a cultura capixaba. Em homenagem ao naturalista Augusto Ruschi, dois beija-flores compõem o pavilhão, ao lado do café principal cultura agrícola do Espírito Santo e de uma coroa imperial, que simboliza a passagem de Dom Pedro I pelo município da Serra durante o período do Império.
Mesmo sem apoio dos órgãos públicos, o bloco desfilou por diversos anos no carnaval capixaba, conquistando reconhecimento e o vice-campeonato em 1997. Com o crescimento da participação popular e o fortalecimento do vínculo comunitário, os dirigentes decidiram, em reunião extraordinária, oficializar a transformação em escola de samba, dando origem à Tradição Serrana, que teve como primeiro presidente Mário César dos Santos.
A trajetória da escola no carnaval capixaba é marcada por desafios, conquistas e processos de reconstrução. A agremiação soma dois títulos no Grupo de Acesso: em 2012, com o enredo "As 13 maravilhas do carnaval capixaba", e em 2014, com "Hoje tem carnaval? Tem sim, senhor!". Ao longo dos anos, a Tradição Serrana consolidou-se por desenvolver enredos com forte identidade própria, priorizando temas ligados à ancestralidade negra, à cultura popular capixaba e ao folclore, características pouco recorrentes no carnaval do Estado.
A escola também se destaca por investir na renovação de seus quadros artísticos, abrindo espaço para novos carnavalescos, coreógrafos e profissionais, fortalecendo processos formativos e preservando a essência comunitária da agremiação.
Para o Carnaval de 2026, a Tradição Serrana apresenta o enredo "A Cor da Liberdade é Preta - O Legado de Queimado", que tem como eixo central a Revolta de Queimado, ocorrida em 1849 e liderada por Chico Prego. A proposta revisita um dos mais significativos levantes de pessoas escravizadas no Espírito Santo, resgatando uma narrativa historicamente silenciada e reafirmando o protagonismo da população negra na luta por liberdade.
O enredo destaca a revolta como um movimento coletivo e organizado, que rompeu com a lógica da submissão e afirmou que a liberdade não seria concedida, mas conquistada. Ao relacionar o episódio histórico com a realidade contemporânea, a escola propõe uma reflexão sobre as permanências do racismo estrutural, da desigualdade social e da violência que ainda atingem majoritariamente a população negra.
A narrativa traça paralelos entre as senzalas do século XIX e os territórios periféricos atuais, reconhecidos como espaços de resistência, solidariedade e criação cultural. O samba surge como linguagem central do desfile, compreendido não apenas como expressão artística, mas como instrumento político e de organização coletiva, historicamente associado à sobrevivência e à afirmação da cultura negra.
O enredo também se posiciona contra a intolerância religiosa, valorizando as religiões de matriz africana e o direito ao sagrado negro, entendendo a fé como herança ancestral e projeto de futuro. Ao longo do desfile, a escola exalta manifestações culturais negras que vão do samba ao funk, do rap ao grafite, reforçando a cultura como tecnologia de resistência.
Ao projetar um futuro afrofuturista, a Tradição Serrana encerra o desfile com a imagem de uma "Constelação Negra", na qual crianças, lideranças e símbolos de realeza afirmam o direito de sonhar, existir e ocupar espaços de poder. Com isso, a escola transforma a avenida em território de memória, denúncia e esperança, reafirmando que o legado de Queimado permanece vivo na luta cotidiana da população preta.
Sinopse
Eu sou a chama que arde no peito,
A memória viva do fogo que não se apaga.
Herdeiro da luta, justiça e respeito.
Sou Chico Prego, sou Queimados em pé,
Negro insurgente, de lança e de fé.
Fugi do cativeiro, queimei a senzala,
Levantei minha voz, fiz tremer a bala.
Do Espírito Santo ecoou meu clarim:
"Liberdade agora, é chegado o fim!"
E se pensam que a história passou,
Olha o gueto que nunca calou.
A favela resiste, no rap, no tambor,
No corpo que dança, no grito de amor.
Do tempo de senzala ao tempo das quebradas
Hoje, a favela samba com os pés fincados na terra
Entre estrelas e favelas, forjamos liberdade.
Porque o céu também é nosso.
Minha luta é presente, está viva, está aí
Na pele retinta que insiste em sorrir.
Eu sou revolta, sou povo, sou chão,
Sou negro, sou quilombo, sou revolução!
