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Vitória de Frente para o Mar resgata o espírito modernizador que deu origem à Esplanada Capixaba
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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes
Todos os dias, centenas de pessoas contemplam a movimentação de navios na Baía de Vitória a partir do calçadão da Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, a Avenida Beira-Mar. Muitas delas não sabem que sob seus pés está uma das maiores obras de engenharia urbana do Espírito Santo. Com o início das obras do Programa Vitória de Frente para o Mar, a Prefeitura de Vitória vai requalificar e devolver grandiosidade à região, onde edifícios, praças e importantes eixos viários, como as avenidas Princesa Isabel e Jerônimo Monteiro, foram construídos sobre grandes aterros a partir de meados do século passado.
O início desta história remonta há mais de um século e passa por sucessivos gestores, engenheiros e urbanistas que enfrentaram um dos maiores desafios da geografia da capital: a escassez de áreas planas para expansão urbana. Com a criação da Esplanada Capixaba, eles conseguiram corrigir a bacia de evolução do porto e criar uma zona comercial associada às atividades técnicas e financeiras de uma cidade portuária.
No Arquivo Público Municipal estão preservados os projetos de engenharia, plantas viárias, fotografias, ofícios e processos licitatórios que contam esta história de expansão e modernização da capital. No futuro, o mesmo setor reunirá os documentos do projeto atual, que começa na altura da Praça Pio XII, prevê ampliação da acessibilidade, melhorias na ciclovia e a criação de espaços de convivência sustentável, fortalecendo a relação da cidade com a Baía de Vitória.
Os pioneiros da orla
No início do século XX, Vitória era uma cidade colonial marcada por morros e uma estreita faixa de terra recortada por praias, pedras e manguezais. O coração político e econômico capixaba, impulsionado pelo comércio cafeeiro, enfrentava a escassez de áreas planas. As partes baixas da ilha eram impactadas diretamente pelo movimento das marés e ficavam constantemente alagadas. Os governantes da época compreenderam que a solução seria realizar aterros, que trariam soluções sanitárias, eliminando "focos de infecções", e abririam novas possibilidades de ocupação.
Na década de 1920, Florentino Avidos lança o Plano de Melhoramentos, que projetou uma avenida de 15 metros, ao longo da baía de Vitória, desde as imediações da Praça Oito de Setembro até o Forte São João, para favorecer as atividades portuárias. Na década de 1930, o engenheiro Henrique de Novaes elaborou o Plano de Urbanização de Vitória, prevendo a expansão das funções logísticas do porto para além do Centro antigo. Ele previu o traçado do aterro da Enseada do Suá com 40 anos de antecedência. O plano de Henrique de Novaes foi fundamental para a importância viária e de conexão com a Região Metropolitana que a Avenida Beira-Mar ganhou.
O Plano Agache
Na década de 1940, o Plano Agache introduziu diretrizes do urbanismo europeu na capital. Sob a supervisão do urbanista francês Donat Alfred Agache, o plano propunha o avanço sobre o mar na Enseada da Capixaba, criando um solo totalmente planejado que serviria de base para a futura expansão da cidade e determinava intervenções que garantissem a fluidez do tráfego e a renovação estética do Centro.
Esse projeto foi o responsável por originar o Código Municipal de Vitória de 1954 (Lei nº 351/1954), que classificou a área aterrada como Bairro Comercial Especial (BCE). Pela lei, os lotes eram destinados exclusivamente a bancos, escritórios, comércios e ao suporte portuário, e proibida a instalação de indústrias pesadas ou hospitais. Além disso, os prédios deveriam ser construídos em blocos contínuos conectados em formatos geométricos (como "O" ou "U"), gerando grandes átrios públicos integrados às calçadas.
O Plano Agache também projetou o gabarito de altura da cidade, estipulando limites entre 8 e 12 pavimentos. A volumetria seria ascendente e escalonada: os prédios deveriam ser mais baixos na primeira linha voltada para a Baía de Vitória, aumentando o gabarito progressivamente nas vias internas, preservando o contato visual com a paisagem. Esse desenho foi modificado nas décadas seguintes, permitindo o uso residencial e gabarito com mais de 20 andares na linha de frente da baía.
Uma nova paisagem urbana
Foi com o Plano de Valorização Econômica, do governo de Jones dos Santos Neves, no início dos anos 1950, que o aterro da Enseada da Capixaba foi concretizado: entre 1951 e 1953, uma área aproximada de 96 mil metros quadrados em pleno coração da capital foi conquistada ao mar. Esse novo terreno, compreendido entre as avenidas Jerônimo Monteiro e Beira-Mar, atraiu edificações emblemáticas para a cidade, como o Edifício Fábio Ruschi (antiga sede da Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale) e os prédios da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil e do Ministério da Fazenda.
Os moradores mais antigos ainda se recordam do tempo em que as águas da baía alcançavam os fundos do Theatro Glória. Também são frequentes as lembranças dos antigos cais localizados atrás do Mercado da Capixaba e da praia existente nas proximidades da antiga Capitania dos Portos, atual Casa Porto das Artes.
A construção da Beira-Mar também redefiniu os fluxos viários da cidade. Na década de 1970, com a chegada dos grandes projetos industriais, como a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), atual Arcelor Mittal, a região consolidou as novas avenidas como corredores logísticos metropolitanos, conectando o Centro Histórico às novas fronteiras de crescimento.
A partir dos anos 1980, a avenida ganhou novas funções: Inspirada no modelo dos calçadões cariocas, a orla ganhou calçadas largas e interdições programadas para realização de esportes, atividades de lazer e de convivência para a população. Atualmente, o calçadão é utilizado diariamente para caminhadas, corridas, ciclismo e contemplação turística, como a observação do movimento de navios no porto, um visual peculiar de Vitória. A avenida também passou a sediar eventos culturais e desfiles de blocos de Carnaval.
Mais de 70 anos após a criação da Esplanada Capixaba, o programa Vitória de Frente para o Mar retoma o espírito transformador que marcou a construção deste espaço, considerado o primeiro parque urbano linear da capital.
Fonte: Arquivo Público Municipal de Vitória





