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Semáforo do Som: estudantes transformam problema de sala de aula em tecnologia para reduzir ruídos
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Por Bárbara Bueno Sá (barbara.saeira$4h064+pref.cdtiv.com.br), com edição de Andreza Lopes
Na escola, o som faz parte da rotina. Conversas, cadeiras arrastando, movimentação pelos corredores, atividades no refeitório. Mas, quando o ruído ultrapassa determinados limites, aquilo que parece apenas barulho pode se transformar em um obstáculo para a concentração, a convivência e o bem-estar.
O que começou como uma dificuldade vivida por um estudante dentro da escola virou um projeto de pesquisa, tecnologia e inclusão. Na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Izaura Marques da Silva, no bairro Andorinhas, em Vitória, oito alunos bolsistas e um voluntário do Ensino Fundamental II estão desenvolvendo um dispositivo capaz de identificar os níveis de ruído e sinalizar, por meio de cores, quando o som está adequado ou excessivo. É o Semáforo do Som, projeto do PIBIC Jr, com apoio do Fundo de Apoio à Ciência e Tecnologia do Município de Vitória (Facitec).
Necessidade que virou pesquisa
A iniciativa surgiu a partir da realidade de um estudante atendido pela educação especial, que apresenta sensibilidade sonora. A situação levou os estudantes a investigar de que maneira o excesso de ruído interfere na concentração, no bem-estar e na convivência e, principalmente, como a tecnologia poderia ajudar a tornar o ambiente escolar mais acolhedor e inclusivo.
O projeto foi apresentado durante uma visita da Companhia de Desenvolvimento, Turismo e Inovação de Vitória (CDTIV) e da Secretaria Municipal de Educação de Vitória (Seme) à escola. Sob orientação da professora Fabielli Feijó Cândido, os estudantes estão participando de todas as etapas da pesquisa: da identificação do problema à coleta de dados, análise, programação e construção do protótipo.
Medições ajudam a entender o ambiente
Para descobrir onde e quando o ruído é mais intenso, os estudantes utilizam aplicativos gratuitos de decibelímetro e fazem medições em diferentes espaços e horários. Os dados são analisados para identificar as médias mínima e máxima de som e entender o comportamento acústico da escola.
É a partir dessas informações que será construído o Semáforo do Som, utilizando Arduino, sensor e LEDs. O dispositivo terá três cores: verde para níveis adequados, amarelo para atenção e vermelho para níveis elevados de ruído.
A escolha por uma sinalização exclusivamente visual também faz parte da proposta de inclusão. Em vez de emitir um alerta sonoro, o equipamento mostrará a situação do ambiente por meio das luzes, permitindo que os próprios estudantes percebam e ajustem o comportamento coletivo.
"O projeto surgiu a partir de uma necessidade vivida por um aluno atendido pela educação especial, que tem muita sensibilidade com som. A ideia é mostrar para os outros alunos que o ruído produzido em excesso é prejudicial e que isso afeta várias questões. Eu acredito que, de modo geral, vai criar um ambiente mais saudável, mais sociável, até entre alunos e professores", explica a orientadora Fabielli Feijó.
Protótipo será testado em sala de aula
O primeiro protótipo será instalado em uma sala de aula específica. A partir dos resultados, a proposta poderá ser ampliada para outros espaços, como biblioteca e laboratório.
Mas, antes de chegar ao protótipo, os estudantes estão descobrindo que a pesquisa também pode acontecer fora da sala de aula. Em uma atividade na Escola de Inovação, no Parque Moscoso, em Vitória, eles participaram de uma oficina prática de programação com Arduino Uno R3 e modelagem 3D. O aprendizado será utilizado tanto na programação do semáforo quanto na construção da estrutura que vai abrigar o equipamento.
Tecnologia desperta novos interesses
A experiência vem despertando nos alunos interesses que vão além do projeto. Júlia Maria, por exemplo, conta que nunca havia participado de uma atividade relacionada à tecnologia. "Eu me interessei pelo projeto por ser um espaço diferente. Eu nunca tinha participado de algo relacionado à tecnologia ou algo relacionado nesse eixo."
Para Pietra Camatta, o próprio nome do projeto despertou curiosidade."Eu pensei: um semáforo? Pra que que ele vai servir, o que vamos fazer com ele? Achei desafiador."
Entre os participantes está Davi de Oliveira, aluno voluntário que encontrou na pesquisa uma possibilidade de conhecer uma área que pode fazer parte do seu futuro. "Tudo que me interessa, eu corro atrás. Eu estou participando desse projeto pensando que, mais à frente, eu possa trabalhar com isso. Posso trabalhar por um lado de acústica, algum dia trabalhar com alguma coisa relacionada a isso, e vou procurando aprender mais sobre o assunto."
O interesse de Davi também passa pela música, aproximando-o ainda mais das possibilidades relacionadas ao estudo do som.
Já Carlos Henrique Correia ficou responsável pela coleta dos dados e encontrou no projeto uma oportunidade de colocar em prática uma habilidade que gosta: medir e analisar. "Eu achei legal a iniciativa e tenho interesse em medir as coisas. O mais importante desse projeto são os decibéis. A gente faz a pesquisa da média mínima e da máxima. Aí, com essa medida, a gente pode colocar no semáforo o tanto que precisa para ficar melhor."
Parcerias ampliam o aprendizado
A pesquisa também levou os estudantes a conhecer profissionais que trabalham diretamente com acústica. A Oro Acústica, empresa especializada em serviços de engenharia mecânica e acústica, realizou uma palestra para os alunos e passou a colaborar com o projeto. A partir dessa parceria, os estudantes vão tentar desenvolver um sensor de som próprio para identificar os níveis de ruído no ambiente escolar.
Outras duas formações ampliaram a experiência dos alunos. A doutoranda da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Lorrainy Ferrari conversou com a turma sobre a importância da participação em projetos de iniciação científica. Já o professor de Inglês da escola, que possui experiência profissional em uma plataforma de petróleo na área de segurança do trabalho, compartilhou conhecimentos sobre os riscos e cuidados relacionados à exposição ao ruído.
Ciência para transformar o cotidiano
A experiência mostra, na prática, como a iniciação científica pode partir de um problema cotidiano e envolver diferentes áreas do conhecimento. Os estudantes estão aprendendo a pesquisar, medir, analisar dados, programar, modelar e pensar em soluções tecnológicas para uma necessidade identificada por eles dentro da própria escola.
Para o diretor-presidente da CDTIV, Jairo Fernandes Siqueira, o projeto demonstra como a iniciação científica pode aproximar os estudantes da tecnologia e estimular a criação de soluções para desafios presentes no cotidiano escolar.
"O PIBIC Jr. tem justamente esse papel de aproximar os estudantes da ciência, da tecnologia e da inovação, mostrando que a pesquisa pode partir de situações que fazem parte do cotidiano. No Semáforo do Som, os alunos identificaram uma necessidade da própria escola, investigaram o problema e estão desenvolvendo uma solução com tecnologia. É uma experiência que estimula a curiosidade, o protagonismo e a capacidade de transformar conhecimento em soluções que podem melhorar a vida das pessoas."
Estudantes como multiplicadores
A próxima etapa será realizada em outubro, durante uma Semana de Sensibilização na escola. Os próprios estudantes vão apresentar o projeto aos colegas, com palestras, slides e os resultados de um questionário elaborado pela turma.
A proposta é que eles se tornem multiplicadores do conhecimento e levem para outras turmas as descobertas feitas ao longo da pesquisa.
No Semáforo do Som, a ciência começa dentro da escola e volta para ela em forma de solução. Ao transformar uma situação do cotidiano em objeto de pesquisa, os estudantes passam a ocupar o papel de pesquisadores, desenvolvedores e agentes de transformação do próprio ambiente escolar.

