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Há 74 anos, uma fazenda dava origem ao labirinto mais famoso de Vitória
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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes
Todos os moradores de Jardim da Penha já ouviram essa pergunta: "Como você consegue se encontrar naquele labirinto?" O traçado peculiar do bairro foi projetado na década de 1950, sobre ideais modernistas e muito ousados para a época. As largas avenidas diagonais e ruas que começam e acabam em praças - e que podem confundir os visitantes - foram planejadas para estimular a vivência comunitária e a circulação das pessoas.
Para decifrar o enigma de Jardim da Penha é preciso conhecer a história deste bairro, um dos mais arborizados e o segundo mais populoso de Vitória. Fotografias e documentos como legislações, plantas urbanísticas e levantamentos cadastrais, preservados no Arquivo Público de Vitória, resgatam a época em que não existiam ruas, prédios, carros, padarias nem moradores. A região era apenas uma grande fazenda cercada de mata nativa.
Uma ponte, uma fazenda e um jardim
Durante séculos, a cidade de Vitória ficou concentrada no Centro e arredores. A parte continental era uma área rural distante, separada da ilha pelo Canal de Camburi, manguezais e trechos de mata.
A primeira ligação com o continente foi feita por uma ponte de madeira construída no final do século XVIII. Por ela passavam pedestres, cavaleiros, carroças e animais de carga. O imperador Dom Pedro II utilizou essa travessia, em sua viagem ao Espírito Santo, para seguir de Vitória para o Norte da província.
Próximo à ponte, ficava a Fazenda Mata da Praia, também conhecida como Sítio Queiroz. A propriedade foi registrada em 1891 em nome do capitão Justiniano Azambuja Meyrelles. Era uma região coberta de Mata Atlântica, com cajueiros, bromélias, goiabeiras, palmeiras, orquídeas e uma vasta restinga. E de qualquer parte daquela área era possível avistar o Convento da Penha.
A Ponte da Passagem e a ocupação da fazenda
Entre 1927 e 1930, foi construída a Ponte da Passagem, que finalmente integrou o continente ao cotidiano da cidade. Com isto, o novo proprietário, o comerciante Ostilho Ximenes, visualizou a oportunidade de lotear a antiga fazenda para casas de veraneio. Ele fez campanhas de divulgação, chegou a fundar um jornal para divulgar o projeto, mas não obteve sucesso.
Já nos anos 1950, com a necessidade de expansão de Vitória, os empresários Creso Euclides e Manuel Pinto retomaram a ideia do loteamento das terras da Fazenda Mata da Praia.
Em vez de seguirem os traçados tradicionais, formados por ruas paralelas e perpendiculares - como um tabuleiro de xadrez -, eles apostaram em eixos diagonais, tendo as praças como elementos centrais, para onde as ruas convergem. A proposta previa a criação de 13 quadras com cerca de 1.400 lotes de 380m2 a 400m2.
Este desenho ousado foi inspirado em experiências urbanísticas modernas, especialmente no conceito das cidades-jardim, criado pelo inglês Ebenezer Howard, e aplicado em cidades como Belo Horizonte, Paris e Washington. A arborização já fazia parte do projeto: as áreas verdes integradas ao espaço urbano reforçam a sensação de frescor e bem-estar.
O projeto foi aprovado pela Prefeitura de Vitória em 1952. A área compreendia a região entre a atual Avenida Adalberto Simão Nader e o canal de Camburi, entre a atual Avenida Fernando Ferrari e a Praia de Camburi. Na década de 1970, um projeto de urbanismo deu origem à Mata da Praia e a localidade perdeu a configuração original de Jardim da Penha.
Ocupação acelerada a partir da década de 1960
Foi em meados dos anos 1960 que chegaram os grandes projetos industriais do Espírito Santo e o decorrente crescimento demográfico. A ocupação da Ponta de Tubarão, com a inauguração do Porto de Tubarão, a expansão da antiga Companhia Vale do Rio Doce (CVRD, atual Vale) e, um pouco mais tarde, a instalação da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST, atual Arcelor Mittal) e da antiga Aracruz Celulose (atual Suzano).
Na mesma época, houve a expansão do Aeroporto de Vitória e da Universidade Federal do Espírito Santo, com a criação do campus de Goiabeiras. Todos esses empreendimentos atraíram trabalhadores, técnicos, professores, engenheiros e empresários. Para responder a essa expansão, havia o recém-criado Banco Nacional da Habitação (BNH), que financiou várias moradias. Em 1968, surgiu o Inocoop-ES, responsável pela implantação de vários conjuntos habitacionais destinados aos trabalhadores organizados em cooperativas.
Voltando um pouco no tempo, até o final dos anos 1960, as ruas nem eram pavimentadas e não havia estabelecimentos públicos nem comerciais. Em Jardim da Penha, havia apenas 106 casas, construídas com financiamento público. Em 1976, união dessas famílias formou a Associação Praiana 106, o Clube 106, para suprir a falta de estrutura de lazer e atuar como espaço de encontro comunitário.
Na década de 1970, a construção civil deu um salto na região: entre 1970 e 1975, foram construídos 1.136 apartamentos em edifícios de quatro pavimentos (sem elevador - na época, não se falava em acessibilidade). Nesta mesma época, foram feitas a abertura e a pavimentação das avenidas Fernando Ferrari e Dante Michelini, mudando a logística com o núcleo central de Vitória e com o interior do Estado.
Novas conexões com a ilha de Vitória
A primeira ligação entre a Praia do Canto e a Praia de Camburi foi construída em 1966. A Ponte de Camburi reduziu o percurso entre o Centro e o Porto de Tubarão e servia de passagem para ônibus com funcionários e materiais para a CVRD.
No entanto, no dia 7 de dezembro de 1967, às 4h, a Ponte de Camburi se partiu e caiu. Não houve vítimas e a causa nunca foi esclarecida. Ela foi reconstruída e reinaugurada em 1969 com o nome de Ponte Ceciliano Abel de Almeida, em homenagem ao primeiro prefeito da capital, professor e engenheiro.
Em 1981, esta ligação foi duplicada com a construção de outra ponte ao lado da primeira, denominada Ponte Petrônio Portela. Muita gente desconhece essa curiosidade: as pontes Ceciliano Abel de Almeida e Petrônio Portela formam o que chamamos, atualmente, de Ponte de Camburi.
Em 1996 foi inaugurada a Ponte Ayrton Senna, que liga Jardim da Penha diretamente à Praia do Canto, à Santa Lúcia e a um importante eixo viário metropolitano, a Avenida Leitão da Silva.
Com o crescimento da cidade e do bairro, as ligações passaram por obras de ampliação: em 2007, a Ponte de Camburi recebeu mais uma pista e, em 2009, a antiga Ponte da Passagem foi duplicada e deu lugar à moderna Ponte Governador Carlos Fernando Monteiro Lindenberg, a primeira ponte estaiada do Espírito Santo.
Jardim da Penha hoje
Atualmente, Jardim da Penha possui cerca de 45.400 habitantes, sendo o segundo bairro mais populoso da capital, atrás apenas de Jardim Camburi (IBGE 2022). Possui toda infraestrutura urbana e está entre os dez bairros mais valorizados de Vitória, considerando o preço do m2.
Esta transformação se deve a fatores como localização (Praia de Camburi, importantes avenidas, como a Dante Michelini e a Fernando Ferrari, e proximidade a polos geradores de empregos) e qualidade de vida (ruas e praças arborizadas, opções de gastronomia, de serviços públicos e privados, lazer e esportes).
Fonte: Arquivo Municipal de Vitória
