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Córrego Jucutuquara: depois de atravessar fazendas e manguezais, hoje corre sob as ruas de Vitória

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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Andreza Lopes


Arquivo Público Municipal
Córrego Jucutuquara. Década de 1950
Córrego Jucutuquara. Década de 1950. (ampliar)

Sob as principais ruas e avenidas dos bairros de Fradinhos, Jucutuquara e Ilha de Santa Maria, corre uma testemunha da história da região, que nos últimos 100 anos passou de uma paisagem rural para a atual forma urbanizada. O Córrego Jucutuquara, hoje incorporado ao sistema de drenagem da cidade, nasce na encosta leste do Morro da Fonte Grande. De lá, recebe água de outros pequenos cursos, desce pelo vale e atravessa três bairros até desaguar na Baía de Vitória.

É a segunda maior bacia hidrográfica da Ilha de Vitória, embora poucas pessoas o conheçam. As intervenções que modificaram o caminho das águas e reconfiguraram a região podem ser reconstruídas por meio de mapas, plantas, fotografias e imagens aéreas produzidos ao longo de mais de um século e preservados no Arquivo Público Municipal.

Do Maciço Central à Beira-Mar

Há registros do início do século XVII, da existência de lavouras entre o mar e as encostas dos morros, da região da Capixaba até o entorno do atual Canal da Passagem. Em Jucutuquara, então também chamada de Jocutaquara, a água do mar avançava pelo vale até a confluência dos rios Fradinho e Maruípe. Os vales da região concentravam roças mais extensas, nas quais se cultivavam principalmente algodão, cana-de-açúcar e mandioca.

Até o final do século XIX, o Córrego Jucutuquara tinha as características naturais preservadas. As nascentes eram protegidas pela vegetação existente nas encostas, especialmente na região de Fradinhos. Nas partes mais baixas, as áreas próximas às margens eram utilizadas para atividades agrícolas, como na Fazenda de Jucutuquara, herdada pelo Barão de Monjardim.

Na parte baixa, ele se encontrava com a área de manguezais e com o canal estuarino. Ali recebia a influência das marés antes de chegar à Baía e era comum transbordar.

Essa realidade começou a mudar com a expansão de Vitória para além do núcleo central. Um dos primeiros planos de intervenção acontece com o Novo Arrabalde, elaborado em 1896 pelo engenheiro Saturnino de Brito. O projeto previa a expansão da cidade em direção a áreas que ainda eram ocupadas por manguezais, terrenos baixos e propriedades rurais.

A Estrada de Rodagem, antes da Avenida Vitória

Por volta de 1910, foi concluída a Estrada de Rodagem, planejada pela Comissão de Melhoramentos da Capital. Construída sobre um aterro que atravessava áreas de mangue, a estrada - atualmente Avenida Vitória - passou a funcionar como uma espécie de barreira para o movimento das águas das marés e das chuvas.

O traçado da estrada foi definido para garantir acesso às praias e às novas áreas que seriam ocupadas pela expansão urbana, entre elas as regiões que hoje correspondem a Jucutuquara, Lourdes e Horto.

Villa Monjardim

No trajeto do Córrego Jucutuquara, Saturnino de Brito chegou a prever a criação da Villa Monjardim, para um núcleo operário. O projeto delimitava a futura ocupação urbana na parte plana do vale e preservava as áreas restantes da bacia. O traçado das ruas acompanhava o caminho natural do córrego, incorporando o leito à organização do novo bairro.

Para fazer a ligação das margens do córrego, o projeto previa a construção de uma ponte, chamada de Pontilhão Jucutuquara, além de outras duas passagens de água canalizadas e subterrâneas. O projeto do Pontilhão já indica a intenção de interferir no curso do pequeno rio e em um antigo canal que existia na região.

A existência das passagens é confirmada por plantas cadastrais de 1946 e por fotografias aéreas de 1955 e 1970. Já a localização exata da antiga ponte não pode ser determinada com segurança, devido à falta de registros mais precisos.

A Villa Monjardim não foi implantada. Décadas depois, durante o governo de Nestor Gomes (1920-1924), as terras do Barão de Monjardim foram desapropriadas e, a partir dos anos 1920, foram feitos aterros nas áreas baixas para reduzir os alagamentos causados pelas cheias do córrego. Sobre esses aterros, foi criado o bairro de Jucutuquara.

A incorporação da Ilha de Santa Maria à Ilha de Vitória

A expansão da cidade avançou também sobre a Ilha de Santa Maria e sobre os manguezais próximos à foz do Córrego Jucutuquara. Durante o governo de Jerônimo Monteiro (1908 a 1912), os Serviços de Melhoramentos de Vitória chegaram a planejar o desmonte de rochas da Ilha de Santa Maria e de outras pequenas elevações existentes na região. A intenção era utilizar o material resultante para aterrar áreas de manguezal, considerados insalubres, e obter expansão territorial.

As obras, no entanto, foram interrompidas por dificuldades técnicas e pelo custo elevado. Na década de 1920, os trabalhos foram retomados pelo governo estadual (Nestor Gomes) e Jucutuquara tornou-se um dos primeiros bairros planejados e implantados fora do núcleo central de Vitória, associado à construção de moradias destinadas principalmente a operários e funcionários públicos.

Entre 1924 e 1928, no governo de Florentino Avidos, a terraplanagem permitiu a abertura de vias como as avenidas 15 de Novembro e Paulino Muller, a construção de casas, galerias de drenagem e da atual Avenida Maruípe. O aterro modificou o caminho natural das águas na região: o curso do córrego ficou mais reto.

Com o trecho aterrado, a Ilha de Santa Maria foi incorporada a Vitória e foi ligada a outras áreas da cidade pela Avenida Vitória. Mas, grandes áreas de manguezal foram mantidas próximas à foz do pequeno rio até meados da década de 1930.

A ocupação residencial veio depois. Casas começaram a ser construídas em áreas aterradas com as rochas escavadas da Ilha de Santa Maria. Os próprios moradores também passaram a realizar pequenos aterros, ao longo de cerca de três décadas. Nesse processo, a região foi sendo ocupada e o espaço disponível para a circulação natural das águas foi sendo progressivamente reduzido.

Paisagem que deu lugar ao asfalto

As plantas de 1946 e as fotografias aéreas de 1955 e 1970 ainda mostram a passagem das águas sob a Avenida Vitória e a presença de um canal na região próxima ao antigo manguezal. Uma fotografia aérea de 1978 mostra a extensão da Avenida Paulino Muller pela Ilha de Santa Maria e a ausência do antigo canal estuarino naquela área.

Acontece que, durante as marés altas de março, o Córrego Jucutuquara transbordava e provocava inundações na área aterrada. A água chegava a passar por cima da Avenida Vitória, provocando alagamentos dos dois lados da via. Constatou-se que, na construção da estrada, um espaço muito limitado foi projetado para a passagem das águas.

À medida que a cidade cresceu, foram abertas novas ruas e áreas construídas, e trechos do curso d'água foram canalizados e, progressivamente, cobertos. Atualmente, o Córrego Jucutuquara, que durante séculos foi um elemento da paisagem local, está canalizado e faz parte da estrutura subterrânea de drenagem da cidade.

Córrego de Jucutuquara