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Conhece o Palácio das Águias? Documentos históricos e maquetes preservam a memória desse monumento

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Por Edlamara Conti (econtieira$4h064+pref.vitoria.es.gov.br), com edição de Julia de Almeida


Arquivo Público Municipal
Antigo Palácio das Águias ou Palácio Nestor Gomes, na Ladeira Santa Clara. Década de 1920
Antigo Palácio das Águias ou Palácio Nestor Gomes, na Ladeira Santa Clara. Década de 1920. (ampliar)
Arquivo Público Municipal
Vista do antigo Cais dos Padres. No alto, o Palácio das Águias. Década de 1920
Vista do antigo Cais dos Padres. No alto, o Palácio das Águias. Década de 1920. (ampliar)

No alto da Ladeira Santa Clara existem vestígios de uma escadaria monumental, paredes e colunas desgastadas pelo tempo e pela vegetação. O que pouca gente sabe é que essas ruínas já abrigaram uma das construções mais imponentes de Vitória: o Palácio das Águias, também conhecido como Palácio de Santa Clara ou Palácio Nestor Gomes.

Residência oficial do presidente do Estado (cargo correspondente ao atual governador), orfanato para meninas vindas do interior e, mais tarde, centro de tratamento de infecções sexualmente transmissíveis, a edificação sofreu com a falta de manutenção, de uso e ocupação na segunda metade do século XX. Atualmente, essa memória sobrevive graças aos documentos preservados no Arquivo Público de Vitória, como jornais, fotografias e ofícios governamentais.

A população também pode conhecer a composição arquitetônica do edifício por meio da maquete artística exposta na Escola da Ciência Física, Biologia e História, no Sambão do Povo, e da maquete digital criada por pesquisadores e arquitetos, disponível on-line (veja o link nas referências). As maquetes devolvem forma, volume e identidade a um patrimônio praticamente desaparecido da paisagem da cidade.

Um palácio com vista para a Baía de Vitória

No alto de uma colina, com vista privilegiada para o Parque Moscoso e para a Baía de Vitória, o Palácio das Águias foi construído durante o governo de Nestor Gomes (1920-1924). A proposta era criar uma residência de repouso para os governantes. Para a construção da edificação, foi aberta a Rua Santa Clara, ligando o parque ao reservatório de água existente na região.

Inaugurado em 1923, o palacete rapidamente se transformou em símbolo de prestígio político e arquitetônico. Sua linguagem arquitetônica eclética era marcada por referências clássicas e ornamentação sofisticada. Naquele mesmo ano, o jornal Diário da Manhã registrava um jantar oferecido pelo então presidente do Estado em sua residência particular, o Palácio de Santa Clara.

Já em 1924, o governo promoveu ampliações e modificações na estrutura original, acrescentando dois grandes pavilhões laterais. Documentos da época descrevem novas áreas cobertas e a expansão do complexo arquitetônico.

Apesar da imponência, o edifício serviu como residência oficial por pouco tempo. Na gestão seguinte, passou a abrigar o Orfanato Santa Luiza. A mudança ocorreu após relatos sobre as condições precárias da instituição, que funcionava em um antigo pavilhão da Santa Casa de Misericórdia. A transferência para o palácio foi definida pelo governador Florentino Ávidos, em 1925.

Pouco tempo depois, jornais capixabas passaram a noticiar a necessidade de reformas e manutenção no prédio. Em 1927, o jornal Vida Capixaba mencionou que o "bello palacete do Morro de Santa Clara" precisava de obras de ampliação e melhorias.

Mesmo com as intervenções, os problemas estruturais persistiram. Em 1936, o Diário da Manhã publicou críticas às condições do edifício, descrevendo dormitórios apertados, falta de iluminação e espaços inadequados para as meninas abrigadas no local. Alguns anos depois, o Orfanato Santa Luiza foi transferido para a Avenida Nossa Senhora da Penha, junto à Escola de Medicina da Santa Casa de Misericórdia, atual Emescam.

A partir da década de 1950, o destino do Palácio das Águias torna-se menos claro. As fontes históricas divergem sobre os usos do imóvel nesse período. O pesquisador Elmo Elton afirma que o prédio passou a funcionar como sede da Escola Maria Ericina Santos. O escritor e historiador Luiz Guilherme Santos Neves também menciona o uso do espaço como grupo escolar.

Documentos da Prefeitura de Vitória apontam que o edifício teria sido utilizado como Centro de Tratamento, serviço de saúde voltado ao atendimento de pessoas com infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). A convivência entre estudantes e pacientes acabou gerando conflitos e, para separar os dois equipamentos públicos, uma grande parede foi construída. Ela ficou conhecida popularmente como "Muro da Vergonha", conforme registram os jornais da época.

Na década de 1970, um novo prédio foi construído para abrigar a escola, e o Centro de Tratamento também foi transferido. Com isso, o Palácio das Águias foi desocupado e abandonado. Sem manutenção, a estrutura começou a perder elementos importantes de sua arquitetura. Salões, escadarias, colunas, estátuas e arcos foram destruídos, desmontados ou até roubados ao longo do tempo. Restaram apenas as ruínas, parte da escadaria principal e algumas paredes.

Em 1985, o Conselho Estadual de Cultura (CEC) realizou o tombamento das ruínas do edifício.

Arte e tecnologia na preservação da memória

O que restou do Palácio das Águias continua resistindo ao tempo no alto de Santa Clara. Mas a memória da construção ganhou novas formas por meio da tecnologia e do trabalho de pesquisa histórica.

Pesquisadores desenvolveram maquetes digitais e reconstruções virtuais do edifício utilizando programas de computador. O trabalho buscou reunir fotografias antigas, documentos históricos e referências arquitetônicas para recriar virtualmente o palácio. Foi um grande desafio, uma vez que o projeto arquitetônico original não foi localizado.

Além da reconstrução digital, uma maquete física do Palácio de Santa Clara está em exposição na Escola da Ciência Física, Biologia e História de Vitória. O modelo permite visualizar detalhes arquitetônicos da construção e ajuda a aproximar o público de um patrimônio que praticamente desapareceu da paisagem urbana.

Segundo os pesquisadores, as maquetes cumprem um importante papel no processo de preservação histórica e arquitetônica. Mais do que reproduções em miniatura, elas funcionam como ferramentas de representação, estudo e valorização cultural.

Mesmo em ruínas, o Palácio das Águias continua despertando curiosidade e interesse. A antiga residência oficial permanece viva como parte da memória urbana e afetiva de Vitória, preservada entre vestígios físicos, fotografias antigas, documentos históricos e maquetes físicas e digitais.

Quem foi Nestor Gomes?

Nestor Gomes (1875-1941) governou o estado do Espírito Santo entre 1920 e 1924, durante o período histórico conhecido como República Velha. Nascido em Conceição de Macabu, no Rio de Janeiro, ele foi comerciante e jornalista. No Espírito Santo, começou sua trajetória política em Cachoeiro de Itapemirim.

Antes de ser governador, foi deputado estadual e senador da República. Como governante, iniciou um plano de melhoramentos e modernização urbana de Vitória. Para isso, contratou o engenheiro Florentino Ávidos, que viria a ser o seu sucessor no governo. Enfrentou problemas de saúde e financeiros. Faleceu em 1941, em Belo Horizonte.

Em razão de sua importância histórica, seu nome está imortalizado na rua em frente ao Palácio Anchieta e no distrito de Nestor Gomes, em São Mateus.

REFERÊNCIAS

. ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. Vitória: IJSN, 1986.

. ESCOLA DA CIÊNCIA - BIOLOGIA E HISTÓRIA (ECBH). [Publicação sobre o Palácio das Águias]. Instagram: @ecbh.vix, 8 mar. 2022. Disponível em: https://www.instagram.com/p/Ca218_-vuRf/?img_index=1. Acesso em: 25 maio 2026.

. JORNAL DIÁRIO DA MANHÃ. Vitória, 2 ago. 1923. p. 4.

. JORNAL DIÁRIO DA MANHÃ. Vitória, 23 maio 1924. p. 13.

. JORNAL DIÁRIO DA MANHÃ. Vitória, 14 maio 1927. p. 10.

. JORNAL VIDA CAPIXABA. Vitória, 15 abr. 1927. p. 1.

. NEMER, Luciana; RIBEIRO, Nelson Porto; CANTREVA, Philipe, LIRA, Pâmela. Reconstrução digital do Palácio das Águias através de desenhos digitais e maquetes virtuais. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO, 7., 2023. Anais [...] v. 2. [S. l.: s. n.], 2023. Disponível em: https://www.academia.edu/97470919/ANAIS_VII_ENANPARQ_2023_vol. Acesso em: 25 maio 2026.

. MOVIMENTO COMUNITÁRIO DO BAIRRO SANTA CLARA. História Palácio das Águias. Facebook, 27 set. 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/movcomsantaclara/photos/hist%C3%B3ria-palacio-das-%C3%A1guias-no-governo-nestor-gomes-1920-a-1924-nasceu-a-id%C3%A9ia-d/393163919683082/. Acesso em: 25 maio 2026.

Arquivo Público Municipal
No alto, à direita, Palácio das Águias e Caixa D´água no Morro Santa Clara. Década de 1920
No alto, à direita, Palácio das Águias e Caixa D´água no Morro Santa Clara. Década de 1920. (ampliar)
ECBH
Maquete do Palácio das Águias. Acervo permanente da Escola da Ciência - Biologia e História
Maquete do Palácio das Águias. Acervo permanente da Escola da Ciência - Biologia e História.