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Prefeitura de Vitória

Secretaria de Cultura

História do carnaval capixaba tem batucadas, congo e renascimento

Marcos Salles

Mestre sala e porta bandeira

Yuri Barichivich

Folião na avenida

O folclorista Hermógenes Lima Fonseca (1916-1996), criador da União das Batucadas e Escolas de Samba, foi um incansável pesquisador da cultura capixaba e brasileira. Nascido em Conceição da Barra, foi membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES) e da Comissão Espírito-Santense de Folclore, na qual ocupou praticamente todos os cargos de diretoria. No texto a seguir, ele conta a história do carnaval capixaba.

A História do Carnaval capixaba, por Hermógenes Lima Fonseca

O Carnaval de Vitória tem sua história de altos e baixos acompanhando, naturalmente, as condições econômicas e culturais. Do bate-moleque e do entrudo, foi tomando suas formas. Dos limões de cheiro e bisnagas, surgiram os lança-perfumes e os bailes à fantasia.

Houve, inicialmente, o período das grandes sociedades, com seus carros alegóricos puxados a cavalo. Foi o tempo da Fênix carnavalesca e do Pierrot, quando o pessoal da alta sociedade participava. Destaca-se nesse período a presença da Casa Cruz, uma empresa dos Cruz Sobrinho, que marcou época. Quando surgiram os automóveis de capa de lona, os fordecos, apinhados de gente jogando serpentinas e confetes, era o chic. Todo mundo saía às ruas para ver o corso.

O último baile do Pierrot foi no antigo Cine Central (ao lado do Hotel Capitólio), que tinha, no andar térreo, a casa Morgado Horta. O Cine Central depois se transformou em armazém de café e ficava onde é hoje o edifício das Repartições, na avenida Jerônimo Monteiro.

Além dessas sociedades, tinha ainda o Flor da China, o Flor do Abacate, o Resedá. O Flor da China era do pessoal dos Nascimento, uma família numerosa e tradicional que residia na Capixaba. Eram grandes festeiros, pois, além dos congos, eram organizadores das marujadas. Nos desfiles dos três dias de momo, havia grupos musicais, como o Centenário, surgido em 1922; os Sururus, que a última vez que desfilou foi cantando a marcha Na Pavuna... Na Pavuna...

Ainda desfilava pelas ruas o grupo musical Mocidade. Antes, porém, existiam dois grupos famosos: Morcegos e Diabos em Folia. Eles se encontravam na rua Duque de Caxias, que era a principal e a mais movimentada, apesar de estreita como é até hoje. Nesse encontro, o pau comia. Era briga na certa. Seus componentes eram o pessoal da Estiva e Docas, trabalhadores da firma Antenor Guimarães ou, como diziam, o pessoal do "bravo meu mano".

Acontece que, em um desses encontros de brigas e das fantasias do Diabo com chifres, o bispo diocesano pediu ao chefe de polícia que proibisse a saída dos Diabos em Folia. Nas proximidades do Carnaval do ano seguinte, o pessoal se reuniu para discutir as medidas do chefe de polícia. Nessa época, havia um ditado popular: "Está cruel. A vida está cruel". Durante a discussão, na procura por outro nome, apesar das várias sugestões, não chegavam a um acordo e diziam "é... está cruel".

Até que um dos presentes sugeriu: "Por que não botamos o nome de Está Cruel?" Todos aceitaram, e o bloco saiu com esse nome, sob a direção de Pedro Furão, que dançava agarradinho e com a caixa de fósforos no bolso. Às vezes, dançava-se o escambau, quando era permitido pelo Cabo Queiroz. Mas o escambau era dançado mesmo na pensão da Aurora Gorda, na Volta de Caratoíra.

O escambau foi o precursor da lambada, que hoje faz tanto sucesso. O Está Cruel deixou de desfilar e só promovia bailes. O cabo Queiroz, mesmo depois das sucessivas promoções, continuou sendo chamado de cabo Queiroz ou, às vezes, até de tenente cabo Queiróz.

Os congos

Após os bate-moleques e o entrudo, o Carnaval era iniciado pela manhã do primeiro dia, com o Congo de João Capuchinho, que ia da Praça 8 até o Cais Schmidt, no final da rua do Comércio, próximo à Vila Rubim, onde havia a fábrica de cerveja Apolo. Seus componentes eram recebidos com alegria e muita cerveja. Cantavam eles: "Oi, rei congo, rei congo é de beira-mar, rei congo foi para a guerra. Ai, meu Deus, como será? Oi, rei congo, rei congo é de beira-mar." Tudo no batido dos tambores do congo. João Capuchinho era serrano e grande animador das folias que organizava, fazendo alegria da então pacata cidade de Vitória.

Eram dois tipos por todos conhecidos: João Capuchinho e Pedro Furão, que estavam sempre à frente de tudo, inclusive nas festas religiosas, principalmente a de São Benedito. Também os Nascimento marcaram a sua época lá pela década de 20 a 30, satirizando os governantes e criticando-os.

Na Revolução de 30, quando o presidente do Estado, Aristeu Aguiar, fugiu a bordo de um navio italiano, fizeram uma paródia com a marcha "Taí. Cadê Aristeu e Mirabeau, que ninguém viu? Azularam com o dinheiro do Estado e deixaram, e deixaram o povo sacrificado". Dizem que a paródia foi de João Capuchinho. Mas, nesse tempo, as marchas e os sambas eram feitos por diversos compositores, não se cogitava em direitos autorais. Ninguém sabia de quem eram, nem o autor as reivindicava. Algumas organizações ensaiavam às escondidas para provocar surpresas no povo que as ia ouvir.

Certa vez, os componentes do Diabo em Folias mandaram um representante ao Rio para saber das músicas que estavam cantando e trazê-las para Vitória, sob todo sigilo. Devemos levar em consideração que o rádio estava nascendo, e mal se ouvia o que se cantava, a não ser Seu cabelo não nega, que foi um estouro quando o rádio divulgou a música pela primeira vez.

As batucadas

Com a Crise de 1929 e logo depois a Revolução de 30, com Getúlio Vargas, desapareceram as grandes sociedades e os grupos musicais. No Carnaval, saíam pequenos grupos chamados de batucadas, que foram aumentando, tomando forma e, então, surgiram em vários subúrbios, chegando a 12.

Assim, foi fundada a União das Batucadas e Escolas de Samba, embora não existissem escolas de samba. A primeira a se organizar foi a Unidos da Piedade, sob a direção de Rominho (na Fonte Grande), que esteve no Rio, aprendendo o ritmo dos surdos e tamborins.

Na Fonte Grande, foram constituídas duas batucadas. Em um Carnaval, na subida do morro, na rua 7 de Setembro, as duas se encontraram, e o pau comeu solto, numa briga tremenda.

A batucada Centenário, oriunda do grupo musical com sede em Santa Lúcia, incentivou o aparecimento de outras, como a Santa Lúcia, a Mocidade da Praia, a Andaraí, a Prazer das Morenas, Gurigica do Centro, além do Império da Vila e São Torquato. Cada batucada tinha sua marcha oficial, como a Chapéu do Lado, muito divulgada: "Quem é, quem é que vem chegando com tanta animação? Quem é? Quem é? Chapéu do Lado do meu coração."

As marchas eram puxadas por um cavaquinho ou banjo. Jaime Cachacinha puxava com seu banjo a Chapéu do Lado. Sob o aspecto social, o interessante era que cada uma das organizações era dirigida por um líder (sua família também fazia parte), e as reuniões eram feitas em sua casa. Por exemplo, Mocidade da Fonte Grande era da família de Nestor Lima; Chapéu do Lado, do seu Eduardo e a filharada; Centenário, da família de João da Cruz e agregados; Santa Lúcia, de Júlio Henrique, um estivador com o apelido de Júlio Tripa de Oca, com uma enorme família entre filhos, genros e netos.

A União das Batucadas

Foi por volta de 1950 que os batuqueiros decidiram criar uma união, no sentido de congregar todos os carnavalescos e tomar decisões para solução dos problemas, procurando unir suas organizações, com a elaboração de estatuto para obter personalidade jurídica e licenças da polícia. Esse foi o primeiro trabalho que coube a União das Batucadas e Escolas de Samba (Ubes).

Depois, os trabalhos de preparação dos desfiles passaram a ser também por eles mesmos organizados. Em torno da Ubes, congregaram-se sem nenhuma influência política que pudesse provocar a desunião. Não obstante, por fora, alguns psicopatas do Golpe de 64 consideravam que a Ubes era foco de subversivos.

Os concursos

Os primeiros concursos foram realizados na porta da redação de A Tribuna, sob a direção de José Luiz Holzmeister, e o critério de julgamento era simbólico. Ali mesmo, discutia-se qual a melhor, e se anunciava a vencedora, que recebia os prêmios e se mandava sem protestos. Depois se achou por bem ter uma concentração no estádio Governador Bley, com comissão julgadora, estabelecendo-se critérios para figurantes, porta-bandeira, bateria, fantasia e música.

Não havia enredo, e o desfile era em ritmo de marcha. Como o julgamento e a escolha dos julgadores deu encrenca, elaborou-se um regulamento, estabelecendo regras, condições, escolha dos jurados, quando muita confusão e protestos se verificavam.

As músicas

No início, havia pouca divulgação das músicas cariocas, e só umas poucas, de grande sucesso, eram cantadas pelo rádio, como o Seu Cabelo não Nega, que se imortalizou até hoje. Cada batucada tinha o seu corpo de compositores, que levavam as músicas para os ensaios. No princípio, os integrantes do Trapiche e Cais do Porto eram os autores, aproveitando os fatos vivenciados.

Rei momo

Ninguém sabe quando e como apareceu a figura de rei momo. Quem poderia dizer isso era o João Gualberto (já falecido), mas infelizmente ninguém registrou suas memórias dos velhos Carnavais.

Houve vários reis momos. Contudo o que mais tempo permaneceu no reinado foi Chico Mussielo, que tinha uma fábrica de calçados na rua 7 de Setembro. Quando o Chico morreu, escolheu-se um português que tinha um bar na rua Duque de Caxias. Mas, no dia de uma passeata pré-carnavalesca, ele não apareceu, ficando de longe, apenas observando.

Como A Gazeta tinha uma página dedicada ao Carnaval, malhou Lázaro, o que foi defendido pelo jornal Ao Roncar da Cuíca, dirigido por José Luiz. No entanto fizeram-se as pazes no boteco do Lázaro, e se resolveu fazer a chegada do Rei das Arábias com Pitomba e sua mulher Terezinha montados no camelo e no dromedário. Foi um grande espetáculo, com uma multidão da Capixaba à Praça 8.

Outros reis surgiram democraticamente eleitos. As notícias dos jornais denominavam os dirigentes carnavalescos de Lords. Era Lord João da Cruz, Lord Nestor e tantos outros. Os diversos acontecimentos, os grupos e as famílias, essa história toda, sem dúvida nenhuma, daria um interessante livro sobre a vida de Vitória.

Sábado gordo

No sábado, saía o pessoal do Banco do Brasil com um bloco sujo denominado Alegria da Vaca, à tarde, abrindo o Carnaval. Depois, apareceu o Tristeza do Boi, do pessoal do Departamento Nacional do Café (DNC), posteriormente Instituto Brasileiro do Café (IBC). Com a transferência de funcionários do Banco, o Alegria da Vaca acabou desaparecendo.

Os blocos de salão

Com o desaparecimento das grandes sociedades, o Carnaval passou para os clubes Saldanha, Vitória, Álvares Cabral e Náutico Brasil, formando os blocos de salão, como o Solta a Negra, do Vitória. Também os rapazes e moças organizavam seus blocos. No Saldanha, organizou-se o Bate-Papo, que cresceu e até saiu em desfile em grande estilo. A música do Bate-Papo se tornou conhecida por todo o povo, e todos a cantavam: "Bate-papo. Bate-papo, meu povo..."

A música e a letra eram de autoria de Moacyr e Clóvis Cruz. Por causa de uma briga no Saldanha, saiu o pessoal da família Grijó, que foi para o Vitória, clube conhecido como aristocrático, que só admitia gente da alta sociedade. Clóvis, então, fez uma marcha com a letra: "Maria você é mulata, como é que pode ser aristocrata?", que ele, no final de sua vida, negou ser alusiva à saída dos Grijós do Saldanha. Era cantada pelos "Street Boys" só para provocar.

Auxílios da Prefeitura

No princípio, ninguém cogitava em pedir auxílio à Prefeitura, pois tudo era feito com amor. Cada participante se esforçava em fazer a sua fantasia e as dos figurantes, conseguidas com o Livro de Ouro, corrido no comércio. Quem assinava dava sua contribuição em dinheiro ou em material.

Só mais tarde, consignou-se uma verba no orçamento do município como auxílio para o Carnaval, contando-se com a boa vontade de Adelpho Monjardim, que era um saldanhista ligado a essas organizações, tinha seus conhecidos e ia assistir aos ensaios. Era conhecido como Bio e tinha, entre seus amigos, Mané Donêncio e outros. Bio chegava aos ensaios e se sentava rodeado dos amigos. Era, sem dúvida, um grande incentivador desse povo. O Barão no meio de seus vassalos.

Advento das escolas

Tudo começou com o Rominho da Fonte Grande, organizando a Unidos da Piedade, com a maioria do pessoal da Chapéu de Lado. Foi uma grande novidade naquele ano, com seu ritmo diferente e seu enredo apresentando-se com toda a pompa.

Também, no Rio de Janeiro, era a Mangueira, a Estácio e outras que iniciavam o Carnaval carioca, que chegou a esse grande espetáculo, atraindo gente do estrangeiro para ver o que é considerada a maior festa do mundo. As escolas desceram do morro para o asfalto, a princípio na Praça 11, com suas alegorias críticas. Mas, na ditadura de Getúlio, houve intervenção e sequer elas podiam ser registradas com o nome de escola, a não ser acrescentando a expressão grêmio recreativo escola de samba.

Os sambas só podiam ser de exaltação ao Brasil, quando foi organizada a Federação das Escolas, sob a presidência de um coronel. O folclorista Édison Carneiro escreveu a história das escolas desde o início e registrou que elas surgiram com o ritmo das folias de reis e dos lundus com as chulatas. Várias escolas foram organizadas pelo povo do subúrbio e seguiam as mesmas normas das escolas cariocas, com seus enredos e alegorias.

Hoje a preparação de uma escola de samba é uma ciência e envolve muita gente. As alas são compostas por pessoas de todo o tipo de área profissional (medicina, direito e magistério, por exemplo), acompanhadas por suas respectivas famílias, todas fiéis à sua escola.

Desfiles

O Carnaval capixaba nada fica devendo aos de outros lugares. Há muitos Joãozinhos Trinta por aqui, no anonimato. Logo após um Carnaval, eles já começam a trabalhar para o próximo. Os enredos são discutidos e estudados. Começa-se por aí. Depois de escolhido o enredo, entram em ação os compositores, que fazem o samba e o submetem a julgamento, e, em seguida, os figurinistas. Na Independente de São Torquato, certa vez, procuraram-me para fazer um enredo folclórico, e tive que proferir uma palestra para os compositores sobre como era o folclore capixaba.

Dois deles conversaram longamente comigo, e confesso que não dei crédito à capacidade deles de colocarem tudo em um samba. No dia do ensaio do samba vitorioso, caí de costas pela descrição e pela beleza do samba, concluído com o refrão: "Ticumbi, ticumbi. Ticumbi fenomenal. Ticumbi, ticumbi, de fama nacional."

O desfile não é nada fácil no seu deslocamento. Unidos da Piedade, Novo Império, Independentes de São Torquato, Mocidade da Praia, Unidos de Jucutuquara e todas as demais, que enriquecem o desfile e passam por uma coisa de doido. Cada ala tem o seu chefe, que conhece o roteiro.

São milhares de pessoas a se juntarem dentro de uma rígida organização, com tempo determinado, alegorias, tudo previsto, controlado e comandado: ritmo, som, bailado, evolução, posição de cada ala, obediência, amor, paixão, cores da escola a serem honradas, comissão de frente, figurantes, destaques, carros deslizando. Tudo isso é uma grande demonstração de capacidade de nosso povo, englobando gente de toda a espécie, em que não há discriminação entre doutores e doqueiros, médicos com suas famílias junto com o povaréu. É a maior demonstração de democracia.

Última atualização em 13/01/2014.

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