Sobre a natureza da matéria
por Evandro Salles
Na escultura, o embate com a matéria, mesmo quando não se apresenta como o ponto central da ação do artista, é sempre uma questão de importância no horizonte de elaboração da obra. Desde que a arte moderna, abandonando o ilusionismo clássico, trouxe a natureza do material para a visibilidade indisfarçada de sua superfície, este se tornou, ele próprio, fonte de sentido para a obra. Assim, se da antiga arte obtínhamos a ilusão da pedra transmutada em carne, na arte moderna, chegamos ao despojamento extremo de buscar sentido na forma plena dessa mesma pedra ainda não tocada. Nesse contexto, a natureza da matéria escolhida pelo artista pôde deixar-se ver de maneira íntegra. O que conta, ainda, é o quê essa pedra pode falar: não mais como uma transmutação de sua natureza mineral, mas como objeto apropriado pelo mundo da linguagem. Dentro da linguagem ela pode ser pedra, mas uma pedra-palavra, uma pedra que fala. Esse é um extremo que nem todos se dedicam.
Há também, no campo da escultura, uma necessidade de luta, uma vontade de docilizar a matéria, torcer sua imutabilidade, sua solidez, sua imobilidade. Com a possibilidade de revelação plena da natureza do material trabalhado, o embate entre artista e matéria pôde, na modernidade, não apenas revelar-se, mas tornar-se o ponto central do trabalho. Alguns artistas entregam-se a esse exercício como o sentido mesmo de sua tarefa: marcar a matéria indiferenciada. Entretanto, essa marca, que pode ser uma nova forma construída, não se refere necessariamente a algo, não precisa ser figural, nem necessita procurar modificar ou esconder a natureza mesma do material usado. Aqui, a transformação se dá também no campo da linguagem: a matéria não perde suas propriedades visíveis, elas apenas não são vistas em primeiro lugar. O que é visto de imediato, ou o que veste a matéria humanizando-a, é sua natureza sígnica. Essa parece ser a tarefa a que se lança o escultor Vilar.
Vilar, como que propositalmente, busca o cerne da dificuldade física do escultor: a irredutibilidade da matéria com que trabalha. É nesse ponto, nesse lugar do difícil, que sua energia é lançada. Os materiais que caem em suas mãos, seja o ferro ou a madeira, eles serão sempre arduamente tencionados até os limites de suas propriedades. A aplicação dessa energia é sempre visível ao final da realização da obra. Seus objetos carregam a marca do processo a que foram submetidos basicamente porque esse processo engendra seu próprio sentido. Numa das fotos que fez de suas últimas obras, Vilar aparece como que ilustrando essa constatação: faz força para vergar uma grande forma curva feita de barras de ferro que se afunilam nas pontas. Esses afunilamentos ou concentrações pontuais da matéria, tão constantes em seus trabalhos atuais, parecem também remeter a um fluxo de energia vertido sobre e da matéria. Tais afunilamentos, mesmo que como pontas agudas possam sugerir reminiscências figurativas, são em realidade convergências de força, direções estabelecidas no fluxo e na troca de energia. Parece que, ao deslocar a estabilidade da energia que repousa na matéria com que constrói seu trabalho, Vilar busca deslocar em realidade o campo de significações por onde transitam os objetos que sofrem sua intervenção. Esse é seu método: intervir sobre a matéria até que a natureza desse esforço a recubra totalmente com outra matéria, a matéria da linguagem, mesmo que o ferro ou a madeira permaneçam indubitavelmente com suas aparências originais. Eles agora, antes, são fala.
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