Trisomatos
A
exposição Trisomatos pôde ser vista
na Casa Porto das Artes Plásticas de 12 de junho a 02 de agosto
de 2004, com a presença dos artistas plásticos Cássio Liberato,
Fernando Accarico e Júlio Tigre. Trisomatos reuniu três artistas cuja interação não é
facilmente percebida. Os trabalhos de Julio Tigre e de Cássio
Liberato pareciam ter algo em comum por serem tridimensionais
e também por manipularem figuras de insetos. Já as pinturas de
Fernando Accarino parecem, a princípio, destoantes no conjunto
pela sua bidimensionalidade e por tratarem da figura humana.
Mas,
no fundo, toda arte tem como assunto o próprio homem. Se, por
vezes, algumas obras mostram lepdópteros ou formicídeos é porque
lançaram mão dessas figuras para remeter de um modo particular
ao tema do homem. Lincoln Guimarães é bacharel em Artes Plásticas
pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), atua no Centro
de Artes da universidade e é doutorando em Comunicação e Semiótica
pela PUC/São Paulo, que participou de um encontro com os artistas,
aberto ao público, afirma que acredita que existe, no modo como
cada artista trata esse mesmo tema geral, um fio que permite aproximar
os trabalhos expostos.
Em
Soma, de Júlio Tigre, uma fina camada de cera contém larvas
que se alimentam das impurezas ali contidas. Delas, vê-se somente
o elegante desenho resultante do seu deslocamento. Logo acima,
o conteúdo de uma vitrina faz alusão à transformação das larvas
em borboletas. O percurso das larvas se define, então, por um
fazer que opera sobre os seus próprios corpos em absoluta conformidade
com o ambiente em que habitam.
No
trabalho de Cássio Liberato, as varetas de solda são, ao mesmo
tempo, o chão sobre o qual as formigas se deslocam e a matéria-prima
de uma espécie de "formigueiro aéreo". Este se apresenta como
uma arquitetura modular que se expande por meio da contínua agregação
de novos módulos.
Enquanto
o fazer das larvas identifica-se com o devir de seus corpos, as
formigas operam sobre o mundo exterior e procuram dar a esse mundo
o formato de suas próprias necessidades. Mas trata-se não de um
mundo material como a cera das larvas, e sim de um mundo matemático
cujas unidades mínimas são a linha e o quadrado.
A
racionalidade deste formigueiro sugere, em comparação ao labor
instintivo das larvas, um grau maior de humanidade. Esta humanidade
reside também na precariedade de uma arquitetura que, apesar de
racional, possui também um corpo: quanto mais cresce, mais ela
se verga sob o peso desse corpo.
Diferenças
Nas
pinturas de Accarino, a figura humana é também modular, pois reaparece
a cada tela em diferentes configurações grupais. Porém, enquanto
as larvas parecem muito bem integradas ao seu mundo de cera, essas
figuras humanas apresentam um total alheamento em relação à paisagem
que habitam. Enquanto as formigas investem na sua babel, as figuras
humanas não se transformam nem edificam nada. Seu fazer é deslocar-se
no vazio, ir de nenhum lugar a parte alguma.
Guimarães
conclui dizendo que Trisomatos traz à tona diferentes aspectos
dos fazeres do homem ao colidir o percurso de três corpos: larvas,
formigas e homens, todos igualmente e estranhamente humanos.

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