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17 de julho de 2006

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Circuito Cultural de Vitória atrai 12 mil pessoas na estréia
 

Aproximadamente 12 mil pessoas assistiram às apresentações artísticas que marcaram o lançamento do Circuito Cultural de Vitória, no último final de semana, no Horto de Maruípe. O Circuito é um programa prioritário da administração municipal, cujo objetivo vai muito além de propiciar aos moradores da capital lazer e entretenimento. Seu propósito maior é a promoção da inclusão social e construção de uma cultura da paz, dentro das propostas do Vitória da Paz. Conifra os melhores momentos clicando aqui.

Os artistas locais tiveram espaço na programação na tenda, com apresentações de peças de teatro, musicais e bandas. Fotos de Sérgio Cardoso

Os visitantes puderam acompanhar, na tenda instalada na parte baixa do Horto, as apresentações dos alunos que participaram das oficinas realizadas na Grande Maruípe durante a fase inicial de implantação do programa.

Crianças e jovens apresentaram números de dança de rua, balé, canto e violão, vídeos experimentais e teatro comunitário. A Banda Mirim de Ensino do Congo "Asas de Andorinhas", criada dentro do Circuito pelo projeto Instrumentarte, foi um dos destaques da programação. Todos alunos, cerca de 200, receberam certificados emitidos pela Secretaria de Cultura de Vitória.

Os artistas locais tiveram espaço na programação na tenda, com apresentações, sempre lotadas, das peça de teatro "Godot" e "Os Coveiros", do musical "Desafinado", e do teatro de bonecos da Cia Leda Barreto. Os alunos da Escola de Teatro e Dança da Fafi também apresentaram números de balé clássico, dança moderna e o Auto de São Pedro.

Direito à cultura

Foi no espaço da tenda que ocorreu o lançamento oficial do programa, no final da tarde de sábado, com a presença do prefeito de Vitória, João Coser. Após a projeção de um vídeo institucional, a secretária de Cultura de Vitória, Maria Helena Signorelli, abriu a solenidade destacando que "o direito à cultura está garantido pela Constituição Federal e que o Circuito parte dessa premissa".

Maria Helena afirmou que o Circuito é fundamental para a promoção da inclusão social, já que "propicia condições para que principalmente os jovens passem por um processo de formação e qualificação profissional".

"Quem tem acesso à cultura", lembrou a secretária, "desenvolve o espírito crítico, amplia seus conhecimentos da realidade, expande seu potencial criativo e têm mais condições de intervir positivamente na sociedade."

Ébano Pimentel Ferreira, 21 anos, que fez a oficina de vídeo, falou em nome dos demais alunos. “O Circuito foi muito importante para mim, pois me abriu novos horizontes, me mostrou uma realidade nova, muito diferente da minha. Eu nunca pensei em trabalhar com vídeo, mas quando fiquei sabendo das oficinas fiquei muito animado. Descobri que através do vídeo eu posso me comunicar com as pessoas e também expressar minhas idéias", afirmou. "Eu cresci vendo a degradação do mangue, mas não tinha voz para denunciar, pois era apenas mais um. Com o vídeo que fiz com o Ricardo Sá a situação ganhou notoriedade. Quem sabe um dia eu não consiga trabalhar com isso."

O show impecável de Rappin Hood, mais famoso rapper nacional no momento, e as apresentações das bandas capixabas Suspeitos na Mira e Salvação lotaram a área em frente ao palco.

Na noite de sábado, o show impecável de Rappin Hood, mais famoso rapper nacional no momento, e as apresentações das bandas capixabas Suspeitos na Mira e Salvação lotaram a área em frente ao palco que foi montado na parte mais elevada do horto. O público dançou e curtiu todas as apresentações sem que fosse registrada nenhuma ocorrência pela Polícia Militar. No domingo, o público também dançou com o reggae da banda capixaba Soldado Imperial e com o som do Forró Comichão.

Acessível a todos que quiseram falar com ele, Rappin Hood deu total apoio à iniciativa da Prefeitura de Vitória de implantar o programa Circuito Cultural, já que ele mesmo viveu a experiência de, através da cultura, passar da condição de marginalizado para a de um artista cujo trabalho é reconhecido nacionalmente, apesar de todos os preconceitos que ainda existem em relação ao rap. Ele se dispôs, inclusive, a retornar a Vitória para participar de outras etapas do programa. Em seu camarim ele recebeu os jovens que fazem parte do projeto Manguerê, desenvolvido pela organização da sociedade civil Centro Cultural Caieiras (Cecaes) na Grande São Pedro e Ilha das Caieiras. Pela manhã ele já tinha estado com as crianças da Banda Mirim de Ensino do Congo "Asas de Andorinhas". Após o show, Rappin Hood também teve um breve encontro com integrantes do movimento negro.

Os instrutores que atuaram na fase de implantação do programa Circuito Cultural de Vitória dentro da Grande Maruípe também falaram sobre como foi experiência de ministrar oficinas de artes na comunidade. Márcia Cruz, professora de dança clássica, ficou surpresa com os resultados e a aceitação da comunidade. “O balé clássico é uma dança elitizada, mas quando nós chegamos na comunidade fiquei surpresa pois as crianças conheciam o balé e as aulas foram bem produtivas.

No início as meninas não tinham postura, não respeitavam os horários e até as roupas não eram adequadas, mas sempre ensinei para elas que uma boa bailarina precisa ter disciplina e elas entenderam o recado", contou Márcia. "Existe muito talento e a semente já foi plantada", acrescentou a professora, "agora é só criar oportunidades para colher os frutos. O Circuito Cultural está só começando, mas tenho certeza que ele será o caminho para que muitos talentos sejam descobertos é preciso incentivar."

Para a instrutora de canto e voz, Verônica Cerqueira, trabalhar no Circuito foi uma experiência única. “Eu adorei a experiência. Quando a gente trabalha a cultura nessas comunidades, nós descobrimos inúmeros talentos. É claro que num primeiro contato as coisas são um pouco difíceis, porque são experiências novas. No canto nós trabalhamos não apenas com a voz da pessoa, trabalhamos também com a postura, a disciplina, a saúde, a auto-estima e, principalmente, com a percepção corporal. Quando elas começam a se descobrir é o máximo, porque você leva esperança para essas pessoas", afirmou.

Para Verônica, o cenário cultural capixaba está "muito estático". "É preciso dinamizar mais e projetos como o Circuito Cultural são importantes para isso. É preciso agora que ações como essas tenham uma continuidade, não basta apenas ensinar é preciso criar oportunidades e abrir portas para estes talentos.”

O lançamento do programa atraiu moradores de todos os bairros da Grande Maruípe, entre esses Itararé, Andorinhas, Santa Marta e Engenharia, e de outras regiões da capital. Estavam presentes, ainda, artistas capixabas, lideranças comunitárias e autoridades públicas, entre essas o vice-prefeito de Vitória, Sebastião Balarini, a deputada federal Iriny Lopes (PT), o presidente da Câmara de Vereadores, Alexandre Passos (PT) , e a subsecretária de Cultura, Elizabeth Caser.

Afroreggae em São Pedro

A próxima região a ser atendida é a da Grande São Pedro. Para o lançamento do programa nesta região, no dia 29, já está agendado um show do AfroReggae, criada na comunidade de Vigário Geral, no Rio de Janeiro. A banda é um dos frutos da organização não governamental Grupo Cultural AfroReggae (GCAR), cujo objetivo é o desvio de jovens do caminho do narcotráfico e do subemprego. Através da arte e da cultura, sempre com um acompanhamento social, o GCAR tem conseguido mudar a realidade das crianças, jovens e adultos assistidos pela instituição. O lançamento do Circuito na Grande São Pedro vai se integrar à comemoração de um ano de implantação do programa Vitória da Paz.

Jovens participantes de diversas oficinas tiveram a oportunidade de mostrar seu talento nos palcos do Circuito Cultural.

O Circuito Cultural de Vitória também passará, pela ordem, nas seguintes regiões: Jardim Camburi; Região Continental (Goiabeiras, Bairro República, Mata da Praia e Jardim da Penha, com atividades inclusive na orla de Camburi, no verão); Santo Antônio; Bento Ferreira; Centro; e Praia do Canto.

O programa está dividido em fases. Sempre que chegar a uma nova região, será promovido um evento cultural para apresentar o programa para a comunidade.

Em uma outra etapa, elabora-se previamente o perfil sociocultural, de forma a considerar as especificidades das comunidades. Associações de moradores, lideranças populares, artistas e produtores culturais participam desse processo que irá definir quais oficinas que serão oferecidas. As únicas oficinas regulares são as de capacitação para produção e gestão cultural e de comunicação comunitária. Todas as oficinas são realizadas a médio prazo, com duração de até três meses.

Durante o tempo em que as oficinas estiverem sendo oferecidas em uma determinada região, são promovidos os chamados “Momentos Culturais”, com apresentações artísticas periódicas nos finais de semana nos bairros onde o programa estiver naquele momento. O encerramento do programa em uma região será sempre marcado pela realização de uma grande Mostra Multicultural. Nesses eventos, além da apresentação dos resultados dos trabalhos produzidos nas oficinas, a Secretaria de Cultura de Vitória também vai oferecer espetáculos com artistas profissionais locais e nacionais.(Adriana Machado)